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quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Poesia - Almada Negreiros

Quem me conhece sabe do meu enorme fascínio por Almada Negreiros que considero um dos maiores homens de cultura do séc. XX português.

Três poemas desenhados por Almada Negreiros em 1920 vão estar expostos pela primeira vez em "Caligrafias - Uma Realidade Inquieta", exposição com obras de trinta artistas portugueses e estrangeiros que abre ao público sábado no Museu das Comunicações.
Com a frase "Arte é comunicação", do crítico de arte britânico Herbert Read, a exposição é introduzida ao visitante, para que relacione "comunicação, escrita e arte", explicou a responsável. A mostra é organizada pela Fundação Portuguesa das Comunicações no âmbito do Dia Mundial dos Correios, a 09 de Outubro e foi hoje apresentada pela comissária e crítica de arte Maria João Fernandes na sede da entidade, em Lisboa.
As "contaminações" da palavra e da imagem "percorrem todo o século XX, desde o Futurismo e Dada, aos caligramas de Apollinaire, ao informalismo e gestualismo das décadas de 30, 40 e 50, ao movimento internacional da Poesia Visual, que em Portugal floresceu na década 60", contextualizou Maria João Fernandes.
Mas essa ligação da palavra e da imagem começou mais cedo, com Almada Negreiros (1893-1970) a tornar-se pioneiro quando criou, em 1920, três "poemas desenhados".
A série de caligramas - desenhada em pequenas folhas simples de um caderno de apontamentos - é mostrada pela primeira vez publicamente nesta exposição. Almada Negreiros desenhou cadeiras, árvores, uma mesa e outras figuras com frases poéticas.
Também foram incluídos na exposição trabalhos de Ana Hatherly, Ernesto de Melo e Castro, expoentes da poesia visual portuguesa, e ainda obras de Álvaro Lapa, Ambrósio, António Sena, Carmo Pólvora, Emerenciano, Eurico Gonçalves, Francisco Laranjo, Gracinda Candeias, Paulo Teixeira Pinto, Rico Sequeira, Teresa Gonçalves Lobo, Teresa Magalhães, Alexandra Mesquita, Cristina Valadas e Inês Marcelo Curto. Estão igualmente representados os artistas espanhóis González Bravo, Hilario Bravo, Antonio Saura, Viola, Suárez e Alberto Reguera.
O público poderá ver nesta mostra a obra plástica de outros artistas estrangeiros fortemente influenciados pela escrita, nomeadamente Alechinsky, que nos anos 40 e 50 integrou o Grupo COBRA.
"Esta tradição estética está a ter continuidade nos dias de hoje, através de jovens artistas que usam a escrita nas suas pinturas", disse Maria João Fernandes, dando como exemplo os criadores portugueses Alexandra Mesquita e Teresa Lobo.
Para conceber a exposição, a Fundação Portuguesa das Comunicações contou com o apoio de entidades como o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, a Colecção Manuel de Brito, a Galeria Valbom, a Galeria/Fundação António Prates, a Galeria São Mamede e outras colecções particulares, que cederam obras.
Paralelamente a esta exposição, a Fundação edita o livro "Caligrafias - A Nascente dos Nomes", que irá dar continuidade ao caderno temático "Caligrafias", editado em 2006 pela Revista Mealibra de Viana do Castelo.


in Lusa

domingo, 4 de maio de 2008

Poema - Mãe



Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue verdadeiro, encarnado!
Eu ainda não fiz viagens
E a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar.
Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exatamente para a nossa casa, como a mesa. Como a mesa.
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros

quarta-feira, 19 de março de 2008

Almada Negreiros


"A cada um que passava dizia o Cristo de pedra: «Em vez de ter morrido numa cruz, por ti, antes tivesse pegado na lança que me abriu o peito, para com ela te rasgar os olhos da cara. Para deixar entrar claridade para dentro de ti pelos buracos dos teus olhos rasgados.»"

- in A Invenção do Dia Claro de Almada Negreiros

sábado, 8 de março de 2008

A Invenção do Dia Claro - Almada Negreiros

"A cada um que passava dizia o Cristo de pedra:
«Em vez de ter morrido numa cruz, por ti, antes tivesse pegado na lança que me abriu o peito, para com ela te rasgar os olhos da cara. Para deixar entrar claridade para dentro de ti pelos buracos dos teus olhos rasgados." - in A Invenção do Dia Claro de Almada Negreiros

Quando li pela primeira vez “A Invenção do Dia Claro” de Almada Negreiros estarreci. Foi como que um despir de alma e ao mesmo tempo um reencontro comigo próprio.
A viagem que Almada nos propõe é interior. Uma viagem que nos rasga e desmembra proporcionando-nos uma reconstrução de um novo eu.
Esta primeira leitura foi feita há já muitos anos e depois dela muitas outras se seguiram e em todas elas o autor tem sempre a capacidade de me surpreender.
Desde logo ficou a ideia de um dia poder subir ao palco e com o público desfrutar este texto singular e maravilhoso. E a ideia foi remoendo e assumindo sempre novas formas, novos cenários, novas composições.
Com os meus 25 anos como actor que este ano comemoro achei chegada a altura de fazer algo especial. E nada melhor do que “A Invenção do Dia Claro”.
Não poderia ser de outra maneira.
E começaram os primeiros “esboços” e as primeiras conversas com quem entende o processo criativo como um todo interdisciplinar.
O músico e produtor musical Miguel Apolinário, companheiro de muitas guerras, foi o primeiro a aderir ao projecto. Depois chegou calmamente o Gonçalo Silva que me surpreende sempre com as suas desconstruções de imagem e pela cultura musical. O Daniel Caíres é a mais recente aquisição deste projecto e da sua imaginação e induzido pelo sabor das palavras de Almada vão nascer os cenários desta “saga”, uma obra tipo instalação que terá como nome: “Idea”.
Assim vamos ter em palco a música original do Miguel, o trabalho de VJing do Yubar, a cenografia do Daniel e o tratamento da palavra de Almada Negreiros que procurarei não estragar.
Datas? Quando estiver pronto. O que penso acontecer lá para finais de Outubro.
Até lá muito trabalho!