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quinta-feira, 11 de junho de 2009

Opinando - 10 de Junho, Portugalidade e Portuguesismo

Alexander Ellis, Embaixador Britânico

Vou amanhã para Santarém para as comemorações do Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas ; um acto que faz parte do ritmo anual do Estado, e naturalmente também do corpo diplomático. O próprio título do dia sugere alguma coisa sobre o conceito de Portugal; vai celebrar-se não só uma terra mas também uma cultura, um escritor épico, e um povo (ou melhor dizendo, povos; as celebrações são das comunidades, não de uma comunidade apenas), que se estendem muito para além das fronteiras do Guadiana, do Minho e do mar.

Este conceito alargado de Portugal desperta-me muito interesse e ainda mais depois de ter ouvido ontem um discurso do Presidente da República em que ele se referiu ao conceito de "Portugalidade". Pedi aos meus colegas portugueses mais informação sobre esta ideia e aprendi muito com as respostas.

Se entendo bem, "Portugalidade" representa o melhor de Portugal e dos Portugueses; uma abertura ao mundo, uma universalidade de correr o mundo e acolher o mundo; é um conceito dum Portugal que tem peso no mundo, por causa da sua língua e da sua atitude, e até da diáspora que prospera em todos os continentes. Portugalidade é então uma forma de identidade, da qual a língua portuguesa constitui um pilar essencial.

Tomando como base esta informação, os meus colegas também referiram a outra face da moeda - o "Portuguesismo". Para eles, isto representa aquilo que Portugalidade não é; atitudes de desconfiança e pouca força, o "não vale a pena, nada muda", os comportamentos que envergonham, ou até mesmo o fechar-se na sua própria dimensão. Por exemplo, (alguns referiram) estar no estrangeiro mas manter hábitos da terra natal, tal como comer croquetes, se calhar de qualidade duvidosa, quando há tanta outra coisa boa para comer...

Sinto-me obrigado a acrescentar que esta sugestão provocou um debate intenso na Embaixada, com alguns a dizer não senhor, que o croquete era uma comida nobre, até digna da Portugalidade, que tudo depende da maneira de o servir. Talvez a definição mais interessante para mim tenha sido a duma colega que disse que Portuguesismo era definir Portugal por oposição ao resto do mundo, começando com Espanha. Ouvi nesta referência ecos do comentário do Presidente Obama no seu excelente discurso no Cairo sobre identidade .

Os dois conceitos, ou pelo menos as duas palavras, são novos para mim. O meu resumo provisório é que a selecção nacional do Mundial do futebol de 2002 representa o Portuguesismo, e a do Euro-2004 a Portugalidade.

O que mais me fascina sobre estas definições é que os dois conceitos têm dentro deles um elemento em comum - a maneira como os Portugueses se comportam no estrangeiro. Isto quer dizer que o conceito de Portugal é, na verdade, um conceito não geográfico mas cultural e que as duas vertentes, uma mais desejada (Portugalidade) que a outra (Portuguesismo), têm um elemento de "lá", da terra fora de Portugal que estranhamente é tão importante na ideia de Portugal; e que, de certeza, implica a importância das "saudades" para a cultura portuguesa - porque é só estando lá que um Português pode sentir saudades de cá.

Mas será que as saudades fazem parte da Portugalidade, ou do Portuguesismo - ou, como os croquetes, tudo depende do contexto?

Opinando - Açorda Ortográfica

Escreve o Professor Fernando Sena Esteves no "O Verdadeiro Olhar":




por: Fernando Sena Esteves

Açorda Ortográfica

Parece que o acordo ortográfico tem a sua entrada em vigor iminente. Aliás, está iminente há já uns meses, outros dizem uns anos e há quem afirme que os documentos oficiais do Diário da República vão sair muito em breve já com as novas grafias, e o mesmo para os livros do ensino básico, embora aqui as opiniões se dividam: uns que é para muito breve, outros para daqui uma meia dúzia de anos.

Aqui entra em campo a Sociedade Secreta da Língua Portuguesa. Não é muito conhecida do grande público, talvez por ser secreta, mas consta em círculos geralmente bem informados que os sócios estão muito descontentes com o acordo obtido, pois não conseguiram a simplificação radical que pretendiam para o Português. Um documento secreto que no entanto transpirou, como acontece em Portugal em que os segredos transpiram que se fartam e se esconde o que se devia conhecer, dá conta do que provavelmente nos espera.

Começando por algumas consoantes ambíguas, o ç não faz falta nenhuma, e será substituído pelo s, cujo único som será sibilante e nunca como z, pelo que deixa de ser necesário usar dois ss, uma esquizitice da nosa língua. Asim, o s ente vogais pasa a z e o c entre vogais, claro que se pronunsia sempre como agora o q, e este muito simplesmente dezaparese por surpérfluo, na companhia do seu ate agora inseparável u. No fim das palavras fica sempre s em ves do z, e escreve-se naris como em lapis.

Os asentos gráficos são banidos, tanto o agudo como o grave e o mesmo para o asento sircunflexo e o til; so não se persebe como o acordo o nao estabeleseu. Isto fara com ce o Portugues seja mais asesivel a todos os povos, podendo ate ultrapasar o Espanhol como segunda lingua, tornando-se de uma simplisidade sem par. A lingua checa tem ainda mais asentos ce a portugueza, mas cuando os checos escrevem na Internet, omitem os asentos todos, persebem-se na mesma e os dedos batem nas teclas do computador muito menos do ce com acela trapalhada grafica.

Similarmente, o g perde a companhia do u e soa sempre como em galo, e o j asume todos os sons de ce se orgulhava o g, como jelo, jelado ou jelatina. O x deixa de se pronunciar como s, z ou cs e aparese o ausilio, o ezame e o tocsico. Em compensasao, substitui o anomalo ch mais proprio do seculo XIX ce do XXI. Por falar em seculo XIX, algem tem saudades de escrever pharmacia, phylosophia, physica ou commemorar?

O m fica so como em mae e e substituído pelo n, mesmo que anteseda b ou p. Claro que o h dezaparese no inisio das palavras e manten-se no lh e nh encuanto nao se arranjar coisa melhor.

Deixando de lado as consoantes, e comesando pelo e, acaba a trapalhada de o pronunsiar como i no inicio das palavras ou cuando anda sozinho, i assim se concista novo progreso linguistico, como en izenplo, izersisio, ilaborar e ilite.

O mesmo se pasara com o o, que fica sempre aberto como em copo ou fexado como em arroto, mas nunca como u, que sera sempre usado cuandu u som e mesmo u, como em turpedu, trucadilhu ou tupaziu. A jente de Tumar ce se va abituando.

Ulhando para o ce fui escrevendu, cada ves aparesem mais palavras sublinhadas a verde ou a vermelho, gostava de saber por ce, i ficu na duvida se u titulu nao ficaria muitu melhor cumu asorda urtugrafica...

domingo, 7 de junho de 2009

Lendo - Crónica de Saramago no "El País"

TRIBUNA: JOSÉ SARAMAGO

La cosa Berlusconi


No veo qué otro nombre le podría dar. Una cosa peligrosamente parecida a un ser humano, una cosa que da fiestas, organiza orgías y manda en un país llamado Italia. Esta cosa, esta enfermedad, este virus amenaza con ser la causa de la muerte moral del país de Verdi si un vómito profundo no consigue arrancarlo de la conciencia de los italianos antes de que el veneno acabe corroyéndole las venas y destrozando el corazón de una de las más ricas culturas europeas. Los valores básicos de la convivencia humana son pisoteados todos los días por las patas viscosas de la cosa Berlusconi que, entre sus múltiples talentos, tiene una habilidad funambulesca para abusar de las palabras, pervirtiéndoles la intención y el sentido, como en el caso del Pueblo de la Libertad, que así se llama el partido con que asaltó el poder. Le llamé delincuente a esta cosa y no me arrepiento. Por razones de naturaleza semántica y social que otros podrán explicar mejor que yo, el término delincuente tiene en Italia una carga negativa mucho más fuerte que en cualquier otro idioma hablado en Europa. Para traducir de forma clara y contundente lo que pienso de la cosa Berlusconi utilizo el término en la acepción que la lengua de Dante le viene dando habitualmente, aunque sea más que dudoso que Dante lo haya usado alguna vez. Delincuencia, en mi portugués, significa, de acuerdo con los diccionarios y la práctica corriente de la comunicación, "acto de cometer delitos, desobedecer leyes o patrones morales". La definición asienta en la cosa Berlusconi sin una arruga, sin una tirantez, hasta el punto de parecerse más a una segunda piel que la ropa que se pone encima. Desde hace años la cosa Berlusconi viene cometiendo delitos de variable aunque siempre demostrada gravedad. Para colmo, no es que desobedezca leyes, sino, peor todavía, las manda fabricar para salvaguarda de sus intereses públicos y privados, de político, empresario y acompañante de menores, y en cuanto a los patrones morales, ni merece la pena hablar, no hay quien no sepa en Italia y en el mundo que la cosa Berlusconi hace mucho tiempo que cayó en la más completa abyección. Éste es el primer ministro italiano, ésta es la cosa que el pueblo italiano dos veces ha elegido para que le sirva de modelo, éste es el camino de la ruina al que, por arrastramiento, están siendo llevados los valores de libertad y dignidad que impregnaron la música de Verdi y la acción política de Garibaldi, esos que hicieron de la Italia del siglo XIX, durante la lucha por la unificación, una guía espiritual de Europa y de los europeos. Es esto lo que la cosa Berlusconi quiere lanzar al cubo de la basura de la Historia. ¿Lo acabarán permitiendo los italianos?

sábado, 25 de abril de 2009

Opinando - Viale Moutinho

Escreve José Viale Moutinho no DN/Madeira de hoje:

Ao longo da História, sobretudo no Renascimento, mas também em épocas posteriores, assinalamos a presença activa do mecenato. Na antiguidade clássica, vemos alguns filósofos, poetas e artistas gregos escravos em Roma muito bem tratados. Entidades particulares, geralmente homens de fortuna, que tomam a seu cargo o sustento de um artista, durante um período mais ou menos prolongado, beneficiando ambos com o negócio: o artista, porque resolve os seus problemas de subsistência; o mecenas, porque aufere a baixo preço das obras feitas sob a sua protecção e, sendo estas texto literário, apenas do prestígio que lhe confere a associação dos nomes. Muitos destes escritores dedicavam as obras feitas nestas condições aos seus protectores com notas de doentia glorificação.

Por exemplo, quem conheceria hoje a família Thurn und Táxis se ela não tivesse abrigado Rilke?

Isto é falar de verbas particulares, que o magnata dispõe conforme lhe dá na gana. Outra coisa são os dinheiros públicos direccionados para a Cultura e administrados pelo Governo. Dinheiros públicos não podem ser tratados doutro modo, nem o Tribunal de Contas o consente. A administração destes é algo variável, um tanto macaca, mas há regras.

Museus, monumentos, centros históricos, investigação nos vários ramos, por exemplo, necessitam forçosamente de verbas para a sua conservação e o seu desenvolvimento. Incluindo pessoal suficiente para os trabalhos e vigilância.

Já as chamadas bolsas de criação artística ou literária devem depender de uma reformulação das regras, aliás em consonância com a prioridade noutras áreas.

Vejamos o que se passa com os direitos de autor e o ensino. Legalmente, nenhum escritor pode negar que um texto seu seja graciosamente inserido num livro de texto escolar. Seria interessante a medida se isso fosse reduzir o preço do livro ao aluno. Porém, o que acontece é que o texto é utilizado e violentado. Quero dizer, as mais das vezes: "adaptado", seja estropiado em função do original, por conveniência do autor da antologia destinada a Português. Seja: o autor está representado com um texto pelo qual não é senão minimamente responsável. E o preço do livro mantém-se... mas em beneficio do antólogo e estropiador-adaptador, movido de boas intenções pedagógicas, mas decerto incapaz de produzir o que precisa. Auferindo os direitos de autor dos seus textos nestas obras escolares, o escritor bem poderia estar melhor instalado na vida e sem necessidade de bolsas!

Recordo-me que, aqui há uns anos, havendo bolsas literárias, o regulamento indicava que o escritor trabalhador por conta de outrem, para beneficiar, teria de desvincular-se temporariamente do seu contrato de trabalho e fazer prova disso. Ora, tal arrumava logo uma data de escritores que tinham emprego, mas não tempo nem patrão que estivesse para os dispensar durante uma ano e tal (ainda que sem vencimento), enquanto ele ia escrever um livro de versos ou um romanceco! Nunca me pareceu conveniente um escritor, criador literário, beneficiar de rendimentos que possam comprometer a sua independência de criador literário. As boas condições de trabalho para a escrita de criação... Olhe, estou a lembrar-me de uma coisa que contava o Vargas-Llosa. Creio que em Londres, no velho apartamento em que vivia, ele escrevia não sei que romance enquanto a mulher afastava os ratos à vassourada! Não advogo este cenário, mas também não acho que possa sair grande coisa de uma torre de marfim no paraíso terreal! Daí que se o Poder aperta os cordões à bolsa no que respeita à Cultura, importa ver em que pontos o faz. Analisar bem a questão e protestar documentadamente. Se o mecenato faz outro tanto, isso já é um direito que lhe assiste porque sempre assim foi. Leonardo sempre forjou maravilhas para os seus mecenas, maravilhas que se tornaram recorrentes máquinas passados centos de anos...

Depois, sempre ma parece que os escritores devem ser contra-poder, não importa quem seja poder. Devem ser consciência crítica e provocatória. Devem, por mais exemplos, lembrar-se de Vieira e de Bocage, de Gorki e de Soeiro Pereira Gomes (estamos no centenário), de José Gomes Ferreira, de Kafka e de Brecht. Mas há milhares mais, felizmente.

domingo, 22 de março de 2009

Opinando - Manuel Maria Carrilho

O antigo ministro socialista da Cultura (1995-2000) e actual embaixador de Portugal junto da UNESCO, em Paris, Manuel Maria Carrilho criticou a política cultural do Governo, acusando-a de ser "cada vez mais invisível, ilegível e incompreensível". Na sua opinião, os anos de 2005 a 2009 podem ser "uma legislatura perdida para a Cultura".

A afirmação, divulgada pelo semanário ‘Expresso’, consta de um documento enviado por Carrilho à fundação Res Publica, no âmbito do debate interno que antecede a preparação do programa eleitoral para as próximas legislativas.

O actual titular da pasta da Cultura, Pinto Ribeiro, escusou-se, entretanto, a comentar as afirmações, alegando desconhecê-las. 'Quando ler o documento, terei muito prazer em discutir, em conversar, em analisar', disse ontem, na inauguração do novo auditório municipal de Olhão.

Em declarações ao CM, o poeta e eurodeputado Vasco Graça Moura concorda com as críticas de Carrilho. 'O Ministério da Cultura tem--se afirmado pela inexistência, a inoperacionalidade, a falta de ideias e a incapacidade de tomar medidas', disse. O político social-democrata diz que as suas relações com o antigo ministro da Cultura 'não são propriamente as melhores', mas sustenta: 'No que respeita à tese geral sobre a inexistência de uma política de cultura, estou inteiramente de acordo com aquilo que ele diz.'

No documento em questão, Carrilho defende que 'a cultura pode dar uma importante contribuição na resposta à crise que o País atravessa.' Esta tese é defendida por outras vozes no campo da cultura.

Vasco Graça Moura evoca o teor de uma conferência realizada recentemente no Parlamento Europeu, em que participou. 'O papel da Cultura em tempo de crise pode contribuir para a sua superação', afirma o eurodeputado. Na sua perspectiva, a acção a desenvolver 'terá de ser efectuada na escala de pequenas e médias empresas, com intervenção local, regional e nacional.' Argumentando 'não se poder esperar que a cultura dê emprego definitivo aos desempregados', Graça Moura afirma, no entanto, ser possível esperar 'o surgimento de muitas actividades que permitam fazer face à crise, ocupando gente e remunerando-a condignamente'.

Manuel Maria Carrilho, que se demitiu do segundo Governo de Guterres na sequência do corte imposto ao orçamento do seu Ministério, defende no documento a atribuição de um por cento do Orçamento do Estado à Cultura. Esta percentagem é superior ao dobro da que actualmente é praticada. Para o antigo ministro, que encara a política em vigor como uma ameaça real à Cultura, 'é urgente mudar.'

José Luís Feronha in Correio da Manhã

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Opinando - Zink, Cardoso e Serrão

Não é que goste particularmente destas três personagens, mas a entrevista que deram à Única, revista do semanário Expresso, coloca o dedo na ferida do estado a que chegámos como país, como nação. Concordo plenamente com muito do que aqui se diz!

Cáustico como sempre, o "sexo fraco" da "Noite da Má Língua" reuniu-se à mesa numa conversa divertida sobre Portugal, que comparam a um talho, onde tudo está pendurado. A actualidade foi passada a pente fino, de José Sócrates a Manuela Ferreira Leite, de Vítor Constâncio ao BPN, da educação à comunicação social. O pretexto foi o seu novo livro "Os Senhores da Má Língua", que transcreve uma conversa de três dias em Setembro, no Algarve.
Como surgiu a ideia de escrever este livro, 13 anos depois do fim do programa?
Miguel Esteves Cardoso: Foi a Bertrand que veio ter connosco. Temos feito sessões de má-língua informais, porque ficámos muito amigos, mas fazíamo-lo por graça e de graça. Assim, foi uma maneira de falar uns com os outros, o que, ao princípio, parecia agradável e depois revelou-se um inferno...
Hoje, era possível haver uma "Noite da Má Língua"?
Rui Zink: Não. Isso implicaria uma televisão que estivesse disposta a correr riscos. E agora parece que não dá.
Como assim?
M.E.C.: Quando o Balsemão fundou o "Expresso", foi uma revolução total nos "media". Na altura, era estonteante a liberdade que se tinha para dizer tudo. Depois, com a SIC aconteceu a mesma coisa, a liberdade permitida era uma loucura. Quando o Rangel veio ter connosco, disse-nos que podíamos falar de tudo, inclusive do próprio Balsemão. Tínhamos liberdade absoluta, o que vai muito além da simples liberdade de imprensa. Foi fantástico. Mas isso hoje não é possível. Hoje há os blogues, mudou tudo muito...
Manuel Serrão: Mais grave do que isso. Há uma ligação enorme entre o poder económico e o poder político, que não existia naquele tempo. Não há lugar para crítica aberta. A teia de interesses é muito poderosa. E não se pode fazer um programa destes com uma cartilha a dizer: não se pode dizer mal da empresa x ou do político y...
R.Z.: Há 14 anos encontrei no metro um homem que me reconheceu da televisão e disse: "Eu sou angolano, no meu país havia uns rapazes que faziam na rádio o mesmo que vocês - foram todos mortos! Quando vejo que na semana seguinte vocês não foram presos, fico mesmo encantado, porque de facto isto é um país livre..."
Como vêem o ambiente político hoje?
M.E.C.: As pessoas têm medo de perder o emprego. Têm medo de falar e ser castigados por isso. Quem trabalha nas empresas tem medo, os jornalistas têm medo, há um ambiente como se fosse censura, sem haver censura. Até os blogues já começam a ser perseguidos...
R.Z.: A boa ditadura é aquela que consegue pôr um polícia dentro da cabeça de todos. E, na cabeça dos portugueses já havia um pide, que só foi expulso no princípio dos anos 90 - esse período foi mesmo um oásis. Houve ali um momento de euforia em que os portugueses começaram a sentir a cabeça mais leve...
...E agora o PIDE voltou?
M.S.: Sim. E, antigamente, as prepotências vinham só do governo. Agora vêm da oposição, o que é uma coisa fantástica! Agora é a própria oposição que quer suspender o governo durante seis meses, e ser mais autoritária que o próprio governo.
No livro defendiam que uma das características de Portugal é não conseguir mudar. Mas afinal agora dizem que mudou, e para pior...
R.Z.: O pide sentiu saudades.
M.E.C.: E nós devíamos era ter formado um banco e não ter feito um programa...
R.Z.: Um banco da má-língua seria uma coisa maravilhosa. Agradava à direita porque era um banco e agradava à esquerda porque era ML.
M.S.: Fiquei muito triste porque, quando começámos a Má Língua, podia gozar com a esquerda. Mas ela desapareceu nos anos 80. Agora, que voltou a haver nacionalizações, e despedimentos, e manifestações na rua, e militares a dizer que vão fazer um movimento, infelizmente não há Má Língua...
R.Z.: Como temos o pio cortado, decidimos pôr tudo em papel. Ainda me lembro de pôr a mão no ombro do Francisco Louçã e dizer: "Ó rapaz, não cries essa coisa do Bloco de Esquerda, não vás para deputado, vais aburguesar-te." Mas ele não me deu ouvidos...
O BE foi uma desilusão para si?
R.Z.: Não, foi uma desilusão para o Miguel Portas, para o Louçã...
M.E.C.: Foi uma desilusão para o próprio Bloco de Esquerda!
"We cannot change" - é um 'slogan' melhor para um partido de direita, como diziam, ou para uma campanha de turismo de Portugal?
R.Z.: Era uma campanha muito melhor do que encher Portugal de cartazes com o Cristiano Ronaldo e o Mourinho... Era muito melhor meter na "Time": "Portugal: We cannot Change".
M.E.C.: Ou então, em bom português, "Portugal: é sempre a mesma merda..." E depois, mostrávamos fotos do Iraque - e dizíamos: "Mas podia ser uma merda pior..."
R.Z.: Mostrávamos fotos do Iraque antes, com a estátua do Saddam, e depois, destruído. E depois Portugal. 1452. Tudo igual. "Sempre a mesma merda..." E um grande prato de bacalhau.
M.S.: Isto tudo para promover os seis meses sem democracia...
M.E.C.: Imagina, a avalanche de turismo de gajos de direita, de "skinheads"... Olha, o Rui chegou recentemente da Venezuela...
Tem lá amigos?
R.Z.: Fui lá vender Magalhães... E o Manel, voltou há uns dias da China, onde foi comprar Magalhães...
No livro, chegam à conclusão que em Portugal está tudo pendurado. "Isto não parece um país, parece um talho!", lê-se. Esta ideia foi, aliás, aproveitada para a capa, onde aparece um bife com a forma do país. Quais são os dossiês pendurados e quem são os maiores talhantes?
M.S.: São tantos! A Casa Pia, a educação, a Operação Furacão, a reforma da saúde, da justiça... Nunca se leva nada até ao fim.
M.E.C.: Há permanentes manobras de diversão e despiste da Justiça com conluio político. Dizem: "Agora vamos apanhar os gajos do futebol - são todos uns vendidos! Agora vamos aos pedófilos - são todos pedófilos! Agora vamos aos bancos - são todos uns ladrões!" Isto nunca vai dar em nada, arrastam-se os processos durante anos, perseguem as pessoas e desfazem-lhes as vidas... O Oliveira e Costa pode estar inocentíssimo, mas já ninguém acredita.
M.S.: As pessoas, mesmo quando são absolvidas, já foram condenadas na praça pública...
R.Z.: O pior é que a comunicação social passou do quarto poder, para o quarto do poder. Agora dormimos todos com o primeiro-ministro.
M.S.: Fala por ti...
Fale por si...
M.E.C.: E depois há uma coisa pior que contribui para a falta de crítica. É que este governo, ainda por cima, é um bom governo... Até nem é mau, de facto! É uma coisa muito estranha de engolir.
É uma terrível ironia... consegue nalguns aspectos ser mais liberal que a própria direita.
M.S.: O governo de um partido supostamente de esquerda consegue ser melhor a ser de direita do que uma opção supostamente de direita que faz oposição de esquerda - estilo marxista-leninista, que até diz: "Vamos lá instalar a ditadura durante seis meses." A Manuela Ferreira Leite parece-me o Lenine de saias.
R.Z.: Pior. A Manuela Ferreira Leite parece uma Zita Seabra de direita.
M.E.C.: É terrível. É que ainda por cima não há vontade nenhuma de substituir o governo...
Quando escreveram o livro, Manuela Ferreira Leite estava em silêncio. Entretanto, falou.
M.E.C.: Nós tínhamos razão. Quando ela falasse é que ia ser... foi o que se viu. Ela devia ter continuado calada...
R.Z.: Pensávamos que tínhamos uma Margaret Thatcher de direita e afinal sai uma Sarah Palin.
M.E.C.: Toda a gente concorda que aquela ideia de suspender a democracia por seis meses até não é má ideia... Não é ironia, até não era uma má ideia... Se não fosse uma boa ideia, não havia aquela reacção tão veemente!
M.S.: O problema é que podia não chegar...
R.Z.: O Pedro Santana Lopes pode ficar mais 50 anos sem saber se ela votou PSD ou não, mas já sabemos em quem é que ela votou para os Grandes Portugueses no ano passado...
Foi uma ironia... No entanto, mesmo quando fala em matéria económica, que domina, parece que não quer ganhar votos.
M.E.C.: Ela tem é um sentido de humor muito apurado, britânico, toda a gente sabe isso. E aquelas palestras no Clube Americano são um inferno, para acordar aquela gente é preciso dizer alguma coisa, tipo "matei a minha mãe!". E ela está-se totalmente nas tintas para a imagem, o que contrasta com uma preocupação e sensibilidade exacerbada deste governo.
R.Z.: Ela foi vítima de a frase ter sido descontextualizada, como é evidente. Ponham um português a dizer uma piada e dá naquilo...
Mas acreditam que vamos ter um "take 2" do "Nem que o Cristo desça à terra" com uma candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à liderança do PSD?
M.E.C.: Os "timings" estão todos a encurtar. O tempo de pedir perdão está a encurtar, o tempo de estado de graça está a encurtar. Se agora o Marcelo for para líder do PSD, temos de ficar acordados para apanhar o seu estado de graça. Se adormecermos ou isso, pode passar e não damos por isso...
R.Z.: Não sei. Eu acho que o Pedro Passos Coelho pode ser o Obama do PSD. Só temos uma palavra para ele: solário! Antigamente um político precisava de ser branqueado, agora precisa de ser queimado. Uma empresa de solários que preste os seus serviços aos políticos ganha dinheiro com fartura. Nós por acaso temos uma empresa que acabámos de abrir e procuramos investidores...
E que vos parece Santana Lopes como candidato à Câmara de Lisboa?
R.Z.: É óptimo! O Manuel parece-lhe muito bem porque não gosta de Lisboa, o Miguel é de Cascais e eu sou masoquista...
M.S.: Eu digo o mesmo que disse no livro: que ele é o único que aceita perder várias vezes e vai sempre à luta.
R.Z.: Repara, o Santana Lopes tem de ir à luta porque não tem emprego mesmo em mais lado nenhum. Os outros, toda a gente aceita. Até o Jorge Coelho arranjou emprego.
E no braço de ferro entre professores e a ministra da Educação, quem tem razão?
M.S.: A ministra.
R.Z.: Os professores. É muito simples: Ou se demite a ministra, ou se demitem todos os professores. É uma questão de divórcio. É mentira que os professores não fossem avaliados, os meus pais penaram durante anos a saltitar pelo país sem terem vínculo de efectivos. E os professores têm de ser avaliados por profissionais da mesma área: um professor de ginástica não pode estar a avaliar um professor de matemática. Isto faz parte da burocracia do nosso governo...
M.E.C.: Tocaram no nervo! Esqueci-me de telefonar a avisar que este assunto era proibido...
M.S.: Há aqui uma questão política importante. Pegando numa profissão que nos diz mais agora: imaginem que os talhantes todos de Portugal se reuniam e diziam: "Vamos passar a vender carne podre - porque gostamos". "Não, mas é proibido". "Não, mas se todos querem vender carne podre, temos de aceitar". Isto é a mesma coisa. O governo não pode ceder. Porque senão, voltámos ao corporativismo. "Seis meses sem democracia", o MFA não sei quê... Estamos outra vez nos anos 70... Os professores com a mania que são vanguardistas, estão a fazer o papel de putos dos anos 70. Isto é o Maio de 68 para os professores. E o Sócrates, que é um gajo moderno, tem reagido bem a isto. Gosto dele, ele havia de ser de direita...
R.Z.: O Sócrates nunca deu aulas, ele nem sequer teve aulas, portanto não tem autoridade para falar.
M.E.C.: Eu acho que é mais uma cortina de fumo... O que é que nos interessa se os professores são avaliados? É uma questão de cacaracá, completamente "boring", não tem qualquer impacto na nossa vida... A julgar pelos miúdos que saem das escolas, são muito bem comportados, são limpinhos - comparando com os ingleses ou franceses... Escrevem mais, lêem mais, têm mais jeito para línguas... Portanto, os professores estão a fazer um bom trabalho. Porque é que nos havemos de preocupar como uma questão interna de uma profissão?
M.S.: Concordo, os jovens estão muito mais educados. Na altura da Geração Rasca, o que é que eles faziam? Mostravam o rabo. Agora, atiram ovos. É muito mais decente.
R.Z.: Eu lembro-me que, quando ia à escola, tínhamos aulas metade do dia e depois íamos à nossa vida. Hoje, a escola transformou-se numa espécie de galinheiro. Os alunos estão ali como pintos num galinheiro de má qualidade, que têm que estar nas salas de aula.
M.S.: Mas tu tens de te calar neste assunto, que és parte interessada. Eu não sou professor, só tenho aulas de golfe, e o meu professor de golfe não está nada de acordo com os professores...
Mas Sócrates pode ter perdido a maioria absoluta por causa deste episódio?
M.S.: Não. Depende de quando for a história dos seis meses sem democracia, porque acho que ele vai aproveitar para prolongar esta maioria absoluta... E depois quando se for a ver... Ah, as eleições são daqui a seis meses...
R.Z.: O Sócrates podia ter um golpe de génio e criar um bloco central com a Manela e suspender a democracia não durante seis meses, mas durante sete anos... Aliás, eles foram feitos um para o outro...
M.S.: Desde que haja um bloco, estás satisfeito...
Se Portugal é um talho, como dizem no livro, a que corresponde o "filet-mignon"? A vazia? Os pezinhos de coentrada? Ou os miúdos?
R.Z.: Os miúdos é o mais fácil, é a Casa Pia. Ou a Madeira. O "filet-mignon" seria o BCP, o BPN... O coração, que está a falhar, é a selecção nacional. A fraldinha seria o Santana Lopes. Os rins, que filtram, e são importantes para o corpo, e são dois - poderia ser o Marcelo. O Marcelo é o segundo rim, apoiou a Manela e agora está disposto a substitui-la, no caso dela falhar.
M.E.C.: E o nispo [parte da vitela entre a pá e o antebraço] - que pouca gente sabe o que é e nós não vamos dizer, porque tem de haver um mínimo de pesquisa da vossa parte -, é o Rui Rio.
Se a Má Língua existisse hoje, José Sócrates seria poupado ou trucidado?
M.S.: Eu acho que seria obrigatório que ele fosse trucidado.
R.Z.: Calma aí, que isto está a ser gravado... Seria poupado.
M.E.C.: O Sócrates tem uma coisa boa, que é ser muito sensível à crítica. É irascível. Isso é muito bom, porque qualquer coisa que se diga, ele amua... Portanto, seria uma óptima vítima.
Rui, como é que um homem de esquerda vê estas nacionalizações na banca?
R.Z.: Responde tu, Manel... (Risos). Eu via melhor se tivesse comprado acções suficientes nos bancos nacionalizados... O que tenho pena é de não ter tido visão para isso. Senão, não tinha que estar aqui a participar com estes dois palhaços... Esta coisa de ser de esquerda... A única pessoa em Portugal que era de esquerda era o Álvaro Cunhal, que tinha uma visão, um programa. Fora isso, andamos, bem à portuguesa, a apanhar um bocadinho daqui e dali.
Ainda há pouco tempo a ex-deputada Odete Santos disse, a propósito das nacionalizações, que afinal quem tinha razão era a esquerda...
R.Z.: Eu sou de esquerda e nunca achei que isso tivesse alguma coisa que ver com nacionalizações, mas sim com regras mínimas de distribuição de um certo bem-estar. Aliás, ando a tentar fundar um partido com o Manuel Monteiro...
M.S.: Essa declaração da Odete Santos, que é uma senhora encantadora, mostra como a esquerda parou no tempo. E como se move por dogmas. Para a esquerda, a nacionalização é sempre boa. Na altura do 25 de Abril, nacionalizar bancos cheios de dinheiro fazia sentido, mas nacionalizar bancos falidos? Mas isso é bom para quem? Para os capitalistas, não para o povo!
R.Z.: As nacionalizações agora são para proteger os investimentos dos ricos...
E que nota dão a Vítor Constâncio, que devia supervisionar a banca?
R.Z.: Ele já tem tantas, por que é que eu lhe hei-de dar mais notas?
M.E.C.: O Constâncio é aquele tipo banana, de quem toda a gente gosta. É como uma peça de artesanato velha portuguesa. Representa um certo tempo. Coitado, ele não está à espera que os bancos vigarizem...
R.Z.: O Constâncio é uma relíquia do tempo do machismo. Representa a ideia que um homem, desde que seja feio, mirrado e tenha óculos grossos, é inteligente... Ele é a prova disso. O tipo tem óculos, tem uma testa grande, tem um ar sisudo e zangado, parece o Woody Allen português, está calado... logo, deve ser extremamente inteligente.
M.S.: O Constâncio é uma antiguidade. Parece aquela cómoda que herdámos dos avós, e que está ali arrumada a um canto. Arranja-se sempre qualquer sítio para pôr...
M.E.C.: Ou um naperon...
Mudando para assuntos mais triviais. No livro falam bastante do silicone, como prova máxima da independência das mulheres. Eles não acham graça nenhuma mas elas põem na mesma...
M.E.C.: Daqui a 30 anos, quando se olhar para a nossa época, o silicone vai ser como os bigodes nos filmes dos anos 70. E o Botox.. Vai ser só rir...
R.Z.: Já há empresas automóveis que fazem preços mais baratos consoante os sexos, porque se for mulher, não é preciso "airbag"...
M.E.C.: Mas as mulheres enganam-se, porque já há muita geração nova que não olha para as mamas...
M.S.: Agora são as orelhas, aquela parte atrás dos joelhos, o mindinho...
M.E.C.: O nispo!
Mas se as mulheres estão cada vez mais entre elas, como é que Portugal vai resolver o problema da falta de natalidade?
M.S.: Eu não tinha pensado nisso, mas talvez a adopção possa ser uma hipótese. Podemos fazer como com o resto: os têxteis - fazíamos cá, passámos a fazer na China. Os sapatos - fazíamos cá, passámos a fazer na Rússia. As couves - fazíamos cá, passámos a fazer em Bruxelas. Porque não os meninos - fazíamos cá, e agora passávamos a fazer na China ou na Índia?
M.E.C.: Correndo o risco de parecer tosco: a baixa natalidade portuguesa não tem a ver com a fraca produção de espermatozóides. Tem a ver com o desperdício dos espermatozóides emitidos e a pouca receptividade que lhes dão. São aos biliões por freguesia desperdiçados, quando bastaria fazer uma recolha, que não dói nada, e fazer uma reserva de portugueses, que iam nascendo, lindos, quando as pessoas se arrependessem de não terem tido filhos, aos 60.
Mas os grandes bastiões dos homens estão a cair. Que papel é que vos resta?
M.E.C.: O problema é as mulheres gostarem tanto de nós... As mulheres adoram homens, esse é o grande segredo. Têm pena, acham graça... Não vão prescindir de nós nunca...
Além de facilitar o divórcio, sugerem também que se dificulte o casamento. Mas assim é menos um papel para o homem, ou não?
M.S.: Nós defendemos que se deve dificultar sobretudo o primeiro casamento... O casamento por amor, o casamento imediato...
R.Z.: Casar por amor é a coisa mais estúpida que há.
Diz um homem casado...
R.Z.: Por isso, sei do que falo. Tomar uma decisão muito séria por meras razões afectivas é a coisa mais estúpida que há. Um casamento é como criar uma empresa. Tem de ser feito racionalmente. Não pode ser por razões de afecto... Eu não tenho que gostar dela...! Agora, o amor... O amor é uma coisa que uma pessoa faz numa sexta-feira à noite...
Queríamos desafiar-vos para umas previsões para 2009... Começamos por uma pergunta fácil. Quem vai ganhar as legislativas?
M.E.C.: Mas a sério ou a brincar...? A sério? O PS. Com maioria. Há um Bloco de Esquerda submerso, e quem está a fazer a hélice andar, muito depressa, é a Manuela Ferreira Leite. Na parte de cima do submarino está o PS e o Sócrates, às cavalitas, e por baixo está o PSD, a fazer "terratatá, terratatá"... E o Santana Lopes está na casa das máquinas...
R.Z.: O Zé Sá Fernandes vai sair do Bloco de Esquerda, portanto isso já dificulta bastante as coisas.
Ferreira Leite vai cansar-se de tanto falar?
M.S.: Acho que lhe vão tirar a tosse rapidamente.
José Sócrates irá passar férias à Venezuela?
R.Z.: Ele já lá passa... Agora, para variar, é capaz de escolher a Birmânia...
M.S.: Eu acho que o Chávez, ao contrário do que parece, não gosta que lhe ponham creme nas costas...
Qual será a próxima proibição da ASAE?
R.Z.: Vai proibir-se a ela própria... E para compensar o desastre da Casa Pia, vai proibir que se comam miúdos...
Sabemos que têm outros interesses - o Rui pela literatura, o Miguel pela gastronomia, o Manuel pela moda -, e queríamos que recomendassem a algumas figuras públicas livros para ler e pratos para degustar. Começamos por Cavaco Silva. Um livro?
R.Z.: "Dinossauro Excelentíssimo" (Cardoso Pires)
E um prato?
M.S.: Bolo-rei mal passado...
M.E.C.: Ou um prato de lentilhas.
E para José Sócrates?
R.Z.: "A Viagem do Elefante" (José Saramago)
M.E.C.: Uma tigela de sonhos. Com calda.
Para Manuela Ferreira Leite?
R.Z.: Qualquer livro dos Cinco, ou dos Sete. Não, "O Capitão Promessa". Não, "O Arquipélago da Insónia" (António Lobo Antunes).
M.E.C.: Língua estufada.
Belmiro de Azevedo?
R.Z.: Um livro de auto-ajuda, tipo "Quem Mexeu no Meu Queijo"... Ou "A Cartilha", do João de Deus.
M.S.: Túbaros à transmontana.
M.E.C.: Não, jardineira. (Isto é para chatear as pessoas que lêem, não é? 'Jardineira, por que é que escolheram jardineira...?')
Um prato e um livro para a Carla Bruni?
M.E.C.: Uma empada de pastilhas Valda, para aprender a cantar...
R.Z.: Solteiros Elegíveis 2009.
Obama?
M.E.C.: Sei lá, um bacalhau com couves - algo que transmita amor...
R.Z.: Eu voto em bacalhau espiritual.
M.E.C.: O Obama é tão bom que está a pensar contratar a Mónica Lewinsky. Ela é a única daquela Administração que ainda não foi contratada. É só Clintonianos... É estranho, ganhar à Clinton e depois ir buscar os adversários. É tipo União Nacional...
Para a Nereida, ex-namorada de Cristiano Ronaldo, uma personagem recorrente no vosso livro?
R.Z.: "A Sombra do Vento que Passa"
M.E.C.: Dobrada à portuguesa.
E, afinal, a má-língua é um direito ou um dever?
M.E.C.: A má-língua é uma coisa que todos os portugueses fazem. É parte da nossa natureza. É um direito natural.
M.S.: Para quem quiser, é um direito. Para quem puder, é um dever. Mas nem toda a gente pode...

Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Dezembro de 2008
Entrevista de Katya Delimbeuf e Mafalda Anjos, fotografia de Ana Baião

domingo, 16 de novembro de 2008

Opinando - E se Obama fosse africano?

E se Obama fosse africano?

Por Mia Couto

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: " E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.
Inconclusivas conclusões
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros , a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Opinando - Ricardo Pais Acusa o Governo de não Ter Projecto Cultural para o País

Lê-se no Público de hoje uma muito abalizada opinião de Ricardo Pais:

Ricardo Pais admitiu ao PÚBLICO e à Rádio Nova que O Mercador de Veneza será a sua última encenação como director artístico do Teatro Nacional S. João (TNSJ). Na entrevista (que pode ser ouvida amanhã e lida segunda-feira no caderno Local Porto e na edição online), o actual presidente do Conselho de Administração do teatro critica o Governo de José Sócrates pela “inexistência de um projecto cultural para o país” e acusa o PS de “fazer sempre a política que permite ao PSD vir a seguir fazer terra queimada das principais conquistas”.
Apesar de considerar que o problema das políticas culturais “é internacionalmente grave” - “Em França, os paradigmas estão a cair, pelo descaramento e pela 'aisance' de um político de facto fracturante como o Sarkozy, para dar apenas um exemplo do que é uma espécie de Pedro Santana Lopes a sério” -, Ricardo Pais sublinha que a questão se põe de maneira particularmente aguda em Portugal, que ainda não assumiu o apoio à criação como “missão nacional”. “Isso tinha que ser feito como parte de um projecto cultural para o país: não tenho visto esse projecto nestes últimos anos, e não o tenho visto seguramente nestas governações”, afirma.
O “baixíssimo tecto orçamental” que o Ministério da Cultura disponibilizou para 2009, diz o director do TNSJ, obrigou ao cancelamento de parte da programação do próximo ano, apesar das expectativas de agilização financeira criadas pela passagem do teatro a Entidade Pública Empresarial (EPE): “Precisamente por ser o primeiro ano em que nos inscrevíamos nessa coisa pomposa e aparentemente eficaz a que se chama sector empresarial do Estado, eu esperava que fosse finalmente a temporada a sério e tinha posto nela um gosto todo particular, desenvolvendo vias de trabalho muito importantes, algumas das quais deixámos cair completamente”.
A esta distância do final do ano, o S. João não sabe sequer, de resto, se pode contar com parte do financiamento inscrito no orçamento para 2008, acrescenta Ricardo Pais: “Vale a pena perguntar para que é que existe um sector empresarial do Estado que em Outubro ainda não sabe que dinheiro tem para o ano em curso”.
Apesar de não ter medo da sucessão - “Já me aconteceram coisas piores: a Agustina Bessa-Luís sucedeu-me no [Teatro Nacional] D. Maria II, não tenho medo de nada” -, o director do S. João gostava de contribuir para a alteração do regime de acesso à direcção de instituições como o TNSJ e defende a figura do “concurso limitado” para que se possa “chegar finalmente à transparência democrática”. Sobretudo depois do que se tem visto no D. Maria, onde, resume, “o Governo conseguiu estar à altura do próprio Carlos Fragateiro na maneira como o exonerou” com um despacho “ignóbil”.

Inês Nadais

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Opinando - Deve Ser Horrível Ser Deus

João César das Neves, professor universitário, escreveu este brilhante artigo de opinião no DN de Lisboa na sua edição de ontem:

Já pensaram na pachorra que é preciso para ser Deus? Lidar com toda a humanidade ao mesmo tempo deve ser horrível. É que Deus tem de conviver com todo o tipo de pessoas. Neste caso é mesmo todo o tipo de pessoas. Não há dúvida que Deus tem de ser Deus só para conseguir suportar ser Deus.
Ser Deus é ser incompreendido. Não existe nada no mundo tão evidente, tão visível, tão compreensível como Deus. Deus, porque é Deus, resplandece em tudo. Por isso, a existência de Deus é uma das certezas mais consensuais da humanidade. No entanto Deus está também acima de tudo, infinitamente acima de tudo. Claro que Deus sabe que as suas criaturas nunca O conseguirão compreender. O problema não está aí, mas na forma como as criaturas lidam com o que não entendem.
Muitos não Lhe ligam nenhuma. Aproveitam tudo o que Ele lhes dá, sem sequer uma palavrinha para agradecer aquilo que, afinal, é tudo o que eles têm e são. Por vezes até exigem mais, invocando direitos inalienáveis. Se Deus não existisse como podiam existir direitos? Como podia existir quem os invoque? Alguém fala dos direitos de Deus?
Aqueles que acham que compreendem Deus às vezes ainda são piores. Que piegas e pedinchões! Como acham que compreendem, fazem contratos com Deus, chantagem com Deus, tentam enganar Deus, seduzir Deus, manipular Deus. Mais, como se consideram relacionados a alto nível, acham-se com direito a uma vidinha melhor. Melhor do que quê? Se é assim, porque não pedir asas ou visão raio-x?
Não é extraordinário que Deus tenha feito o universo e depois essa obra se ponha a comentar o que Ele fez e o que ela é? Temos mil críticas à forma como o mundo funciona. Como se houvesse alternativa e não fosse um privilégio indescritível simplesmente existirmos. Nós somos os que conseguiram convite para participar neste momento e neste cantinho da Criação. Lamentar o mundo e a sociedade, desdenhar da obra e Autor é, senão grosseria, pelo menos tolice.
A mais bela criatura de Deus é a liberdade humana, e é essa que gera mais problemas. Deus criou a liberdade da forma mais radical, recuando para deixar outros fazer. Se a liberdade humana avançar Deus consegue realizar obras espantosas. Menos perfeitas do que as que Deus faria sozinho, mas muito mais valiosas por serem feitas por quem não é capaz.
O risco da liberdade é que pode ser usada como se quiser. Uma liberdade sem Deus é destruição, mas isso faz parte da liberdade. O mais incrível é muitos usarem esse mal que a liberdade humana faz sem Deus como prova da inexistência de Deus. Como existe mal no mundo, que nós fizemos, então não pode existir um Deus bom, que nos fez a nós. Eu estraguei e por isso Ele não existe! Não é espantoso o raciocínio?
Talvez o mais ridículo seja nós nos orgulharmos daquilo que Deus fez através de nós. Alguém que não é nada senão aquilo que Deus fez, que depois teve de ser corrigido porque já estragara o que era, e que só conseguiu fazer algo de bom porque Deus lhe segurou a mão, anda todo inchado com essa sua realização! E nós todos dizemos «que grande artista!», «que genial autor!», «que excelente artigo!», sem percebermos que o verdadeiro Artista e Autor é aquele que merece palmas cada vez que passa uma mosca.
Ser Deus é tão horrível que, se Ele viesse a este mundo, as coisas iam correr mal de certeza. É verdade que os gregos, romanos e outros imaginaram como seriam as visitas dos deuses, mas eles perceberam tudo ao contrário, descrevendo a cena como um patrão a visitar a propriedade. O que aconteceria realmente seria que, depois de um momento de euforia no reconhecimento, começariam as reivindicações, as discussões, os ataques. Não! Se Deus nos visitasse, o mais certo era Ele acabar morto da forma mais cruel que se conseguisse encontrar.
Deve ser horrível ser Deus. Afinal quem é que quereria ser Deus, para ter tanto trabalho, fazer tudo tão bem, tão perfeito e depois acabar esquecido, desprezado, incompreendido? Tem de se ser especial para se aceitar ser Deus. De facto só o Amor quereria e poderia ser Deus.


in DN de 22 de Outubro de 2008

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Opinando

No DN/Madeira de hoje José Manuel Morna Ramos escreve, e muito bem, sobre os cinzentos que temos que aturar todos os dias e em toda a parte. Boa primo!!!!
Com a devida vénia ao DN e ao Zé Manel aqui transcrevemos os escrito.

'Sorvete de pimpinela'

Na política há muitos! Basta abrir 3 jornais nacionais 3 dias seguidos para ver as "carinhas".

Há pessoas que nascem, crescem, vivem "cinzentas" e permanecem "cinzentas" até morrerem... "cinzentas", claro está! Isto, nada tem a ver com racismo, até porque não tenho qualquer sentimento do género; mas posso achar piada às larachas e anedotas, de pretos, brancos, louras, madeirenses, alentejanos, porto-santenses e belgas. São "histórias", que só pretendem a diversão pura, com as peculiaridades de cada um! E já agora, confunde-se muito, racismo com tribalismo e com outros grupos organizados em objectivos comuns. Onde os confrontos nada têm a ver, com a cor da pele, mas com rituais, usos, costumes e hábitos, alguns deles ancestrais, que tanto surgem em África, como em outro qualquer continente ou país. São "guerras" entre tribos, clãs, seitas, famílias, grupos étnicos, que se justificam, pela religião, pela política, disputas económicas várias, droga, "álcool", "urânio enriquecido", ou qualquer outro motivo duvidoso à imagem pública. E para que essas "guerras", sejam consumadas, temos uns "países-zinhos" - que são sempre os mesmos - para fornecer as armas, e provocar as catástrofes constantes, motivo de abertura dos telejornais.
Também, quando falo em "cinzentos", não me quero referir à "antiga" Albânia, com toda a gente vestida de cinzento, com bicicletas cinzentas, iguais, passeando na praça principal de Tirana, como se vê numa antiga imagem fotográfica, a cores.
Há mesmo pessoas, que quando nascem, até parece que já conhecem o seu percurso na vida, e sabem que vão "desfilar" durante anos a fio, passando despercebidos, ostentando a tal cor que escolhi, por não ser preto nem branco. E que no Reino Unido passariam totalmente invisíveis no "fog inglês"! E agora perguntam? Serão daltónicos? Não! Garantidamente não! Pela minha experiência e até porque tenho amigos daltónicos, confirmo que não são cinzentos. Até são um pouco excêntricos, e usam mesmo, roupas com cores desenquadradas - ex.: lilás-arroxeado -, fruto da percepção e desconexão cromáticas.
Como já entenderam, o cinzentismo, é um estado de espírito! Que nada tem a ver com a depressão ou a fibromialgia. Antes pelo contrário, os cinzentos nunca estão deprimidos - antes deprimem os outros - nem são queixosos permanentes como os fibromiálgicos. Têm sempre solução e resposta para tudo, mas depois não resulta em nada. São, o não e o sim, ao mesmo tempo e fica tudo na mesma!
Podemos vê-los em todas as profissões e os menos discretos são conhecidos como os "empatas"! Os brasileiros, que são sempre muito espirituosos, chamam-lhes: "picolet de xuxu", que quer dizer: "sorvete de pimpinela"! Na política há muitos! Basta abrir, três jornais nacionais, três dias seguidos, para ver as "carinhas", duma série deles! Estão sempre de "blazer", com calças... e gravata, sempre tudo em azul! E as conversas são sempre as mesmas... e não mudam! Estás igual, pá! E não te "ponho a vista em cima" p´ra i há 8 anos! Conversa! Quem está igual é mesmo o gajo! Põe cremes, faz massagens, vai à mani-pedicure, retoca e pinta o cabelo, toma antioxidantes, não corre, mas anda a pé - de fato de treino - não fuma, quanto muito um charutinho, e bebe só vinho tinto, para aumentar o "bom" colesterol.
Faz férias, alternadamente, no Algarve e na Ericeira, e leva sempre, dois livros para ler na praia, o Saramago e o Harold Robbins, conforme as companhias dos vizinhos de guarda-sol. Já "mexe" no computador, só na internet, nalguns sites, porque: - "a minha secretária já sabe fazer tudo"! E não se reformam, porque reformar é morrer! E são espertos, porque, como não sabem fazer mais nada, a reforma para eles é mesmo a morte. Mas um dia acabam por se reformar, em última instância e quase sempre têm uma festa de despedida ou uma homenagem discreta, fabricada, para poderem fazer um discurso, cinzento, tipo ... "saio, com a sensação, digo, - SENSAÇÃO - do dever cumprido"! O cumprimento do dever, pesa-se, mede-se, calcula-se e exprime-se em números, ... mas, não depende duma "sensação de leveza" ou dum "sentimento de peso" do ser humano.
Quando se consegue "focar" na retina, não é mau, mas, melhor ainda, é "focar" na retina e também, poder "focar" um pouco mais atrás, mesmo dentro do cérebro - "o chamado ver mais do que a vista alcança"! Por isso, talvez com o desenvolvimento das descobertas sobre o genoma humano, haverão de encontrar, com certeza, o cromossoma dos "cinzentos" para "cirurgicamente" o corrigirem. E ficaremos... livres!!, não direi, mas "dispensados" de os ter ao nosso lado, fazendo aquele papel "decorativo" permanente. Devemos tentar sempre, ser perfeccionistas e se possível dentro da nossa espécie, também,... porque devemos fazer tudo para tornar o NOSSO MUNDO melhor.

José Manuel Morna Ramos