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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Exertando - Miguel Esteves Cardoso - Os Meus Problemas

Fazer um registo de propriedade é chato e difícil mas fazer uma declaração de amor ainda é pior. Ninguém sabe como. Não há minuta. Não há sequer um despachante ao qual o premente assunto se possa entregar. As declarações de amor têm de ser feitas pelo próprio. A experiência não serve de nada - por muitas declarações que já se tenham feito, cada uma é completamente diferente das anteriores. No amor, aliás, a experiência só demonstra uma coisa: que não tem nada que estar a demonstrar coisíssima nenhuma.
É verdade - começa-se sempre do zero. Cada vez que uma pessoa se apaixona, regressa à suprema inocência, inépcia e barbárie da puberdade. Sobem-nos as bainhas das calças nas pernas e quando damos por nós estamos de calções. A experiência não serve de nada na luta contra o fogo do amor. Imaginem-se duas pessoas apanhadas no meio de um incêndio, sem poderem fugir, e veja-se o sentido que faria uma delas virar-se para a outra e dizer: «Ouve lá, tu que tens experiência de queimaduras do primeiro grau...»

Pode ter-se sessenta anos. Mas no dia em que o peito sacode com as aurículas a brincar aos carrinhos-de-choque com os ventrículos, Deus Nosso Senhor carrega no grande botão «CLEAR» que mandou pôr na consola consoladora dos nossos corações. Esquece-se de tudo. Que garfo usar com o peixe. Que flores comprar. Que palavras dizer. Que gravata com que raio de casaco hei-se usar? Sabe-se nada. Nicles.

(...)


Miguel Esteves Cardoso
in Os Meus Problemas

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Excertando - Miguel de Castro Henriques- "Uma Menina de Sete Gatos ou o Saldo de Eüler"

Perceber Fantasmas

Era uma vez um fantasma pequenino, um gafanhoto e um pedacinho de papel.
O papel queria ficar todo escrito com histórias muito bonitas, o gafanhoto queria ficar escrito com couves e agriões, fossem bonitos ou não, e o fantasma queria estar em toda a parte - como Deus. Só que para ser Deus é preciso muito jeito. Mas o fantasma não sabia isso e começou a ser Deus.
Isto é, começou a julgar que era Deus.
(...)

Miguel de Castro Henriques
Uma Menina de Sete Gatos ou o Saldo de Eüler

Miguel de Castro Henriques (Buenos Aires, 5 de Junho de 1954) é um escritor, poeta, pintor e tradutor, representante do surrealismo português.
Frequentou a Faculdade de Medicina de Lisboa e estudou filosofia na Faculdade de Vincennes, onde foi aluno de Gilles Deleuze. Durante a sua estadia em Paris em 1971 frequenta a Academia IFIF de La Petite Lune. Com João de Sousa Monteiro fundou o Movimento Abaldista ou Abald, em ano incerto. Fez parte do grupo dissidente "Os Surrealistas" do qual fazem parte entre outros os seguintes poetas Virgílio Martinho, Herberto Helder, António Quadros, M. S. Lourenço, Nicolau Saião, Mário Botas, Hermínio Monteiro e Miguel de Castro Henriques. Mais tarde com Mário Cesariny e M. S. Lourenço fundou o Bureau Surrealista.
Miguel de Castro Henriques tem também praticado a escrita e a pintura automática, e alguns dos seus livros de contos, como "Uma Nuvem num Pote de Barro" e "Uma Menina de Sete Gatos ou o Saldo de Eüler" foram publicados pela Assírio&Alvim.