Ainda me lembro de começar a comemorar a Festa com as primeiras Missas do Parto. Conforme a idade me vai aumentando o currículo, cada vez o Natal me sabe a menos, cada vez começo a senti-lo mais tarde. A minha Festa, hoje em dia, começa cada vez mais tarde e acaba cada vez mais cedo.
Mas tenho saudades, muitas saudades de um tempo irrepetível em que o consumismo não existia e não se contabilizava o sucesso desta época em termos de deve e haver. A felicidade tinha a ver com o facto de estarmos todos juntos e juntos celebrarmos uma época de solidariedade e de partilha.
Na época era pouco comum fazerem-se jantares disto e daquilo. Não precisávamos pois estávamos juntos o ano inteiro. Hoje participo em muitas jantaradas onde reencontro alguns velhos conhecidos que acabo por só ver uma vez por ano. Sintomático é o incontornável "então até pró ano" da despedida.
Como era bom que tivéssemos a capacidade de parar, olhar para trás e escolher o Natal de outrora, de um tempo que não volta. O Natal do "Tin-Tan-Tun", dos cheiros ao licor de tangerina a macerar desde Novembro, das camisolas de lá grossa que usávamos porque o frio que fazia a isso obrigava. Da vinha-e-alhos preparada em família e tornada para dentro do grande pote de barro onde ficava semanas a ganhar o gosto e o cheiro que inundava a casa no almoço do dia da Festa. O amassar dos bolos de mel e o fazer dos biscoitos, o visitar as casas dos vizinhos que eram pessoas que conhecíamos e não desconhecidos, o provar o licorzinho e a aguardente com mel ou anis. O acordar às quatro e picos da manhã para as preparações libatórias da Missa do Parto. O descer a Rua de Santa Luzia aos magotes e em grande algazarra até à Igreja onde cantávamos a "Virgem do Parto" em altos berros como mandava a tradição. A Missa do Galo, a canja, os poucos mas merecidos presentes onde havia sempre livros que me fascinavam nos meses seguintes.
Tenho saudades e muitas...