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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Lendo - Novo Saramago

O novo romance de José Saramago chama-se Caim e tem como personagens principais aquela figura bíblica, Deus e a Humanidade «nas suas diferentes expressões», segundo a descrição de Pilar del Río no blogue do Nobel da Literatura.

«Saramago escreveu outro livro», anuncia a mulher do escritor e presidente da Fundação José Saramago num texto colocado no blogue O Caderno de Saramago, recordando que surge um ano depois do lançamento do anterior, A Viagem do Elefante.

A nova obra literária «não é um tratado de teologia, nem um ensaio, nem um ajuste de contas: é uma ficção em que Saramago põe à prova a sua capacidade narrativa ao contar, no seu peculiar estilo, uma história de que todos conhecemos a música e alguns fragmentos da letra», descreve Pilar del Río.

Assinala ainda que em Caim, tal como nos anteriores livros - e dá o exemplo de O Evangelho segundo Jesus Cristo - «o autor não recua diante de nada nem procura subterfúgios no momento de abordar o que, durante milénios, em todas as culturas e civilizações foi considerado intocável e não nomeável».

Esse objecto de análise no romance é «a divindade e o conjunto de normas e preceitos que os homens estabelecem em torno a essa figura para exigir a si mesmos - ou talvez seria melhor dizer para exigir a outros - uma fé inquebrantável e absoluta, em que tudo se justifica, desde negar-se a si mesmo até à extenuação, ou morrer oferecido em sacrifício, ou matar em nome de Deus», aponta.

Em 1991, O Evangelho Segundo Jesus Cristo causou acesa polémica em Portugal, e viria a ser vetado pelo governo à época para concorrer ao Prémio Europeu de Literatura, iniciativa que pesou na decisão do escritor para abandonar o país e passar a residir em Lanzarote, Espanha.

Pilar del Río sublinha ainda no blogue: «com a cabeça alta, que é como há que enfrentar o poder, sem medos nem respeitos excessivos, José Saramago escreveu um livro que não nos vai deixar indiferentes, que provocará nos leitores desconcerto e talvez alguma angústia, porém, amigos, a grande literatura está aí para cravar-se em nós como um punhal na barriga, não para nos adormecer como se estivéssemos num opiário e o mundo fosse pura fantasia».

«Este livro agarra-nos, digo-o porque o li, sacode-nos, faz-nos pensar: aposto que quando o terminardes, quando fizerdes o gesto de o fechar sobre os joelhos, olhareis o infinito, ou cada qual o seu próprio interior, soltareis um uff que vos sairá da alma, e então uma boa reflexão pessoal começará, a que mais tarde se seguirão conversas, discussões, posicionamentos», escreve ainda a presidente da Fundação Saramago no texto.

Quase a concluir, Pilar del Río classifica o romance de José Saramago, 86 anos, como «literatura em estado puro».

Filho primogénito de Adão e Eva segundo o Antigo Testamento da Bíblia, Caim sentiu ciúmes por Deus ter preferido as ofertas feitas pelo irmão mais novo, Abel, e matou-o, cometendo o primeiro homicídio na história da Humanidade.

Caim vai ser lançado em Outubro pela Editorial Caminho na Feira do Livro de Frankfurt e no final do mês estará à venda nas livrarias em Portugal, Espanha e América Latina.

Lusa

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Lendo - "De degrau em degrau, vamos descer até o grunhido"

José Saramago defende que o Twitter não é mais do que «a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido». O prémio Nobel português falou ao blog Prosa, do jornal brasileiro O Globo, numa altura em que o seu livro «O Caderno» é lançado do outro lado do Atlântico. O escritor revelou que ainda este ano poderá ser lançado o segundo volume das suas crónicas na internet (http://caderno.josesaramago.org/) e que o filme sobre ele e a mulher Pilar del Rio poderá ter comercialização também em 2009.

Política, literatura, religião, viagens, Chico Buarque e, logicamente, o mundo da internet, dos blogues e do Twitter. Os temas abordados por Saramago na entrevista são inúmeros e dão uma pequena ideia sobre algumas das opiniões do prémio Nobel. No Brasil, país onde o escritor tem um elevado número de leitores e admiradores, «O Caderno» foi lançado pela editora Companhia das Letras. A entrevista, como é lógico ao tema, foi feita por e-mail.

A entrevista de José Saramago na íntegra (em português do Brasil):

O GLOBO: Seu livro «O caderno» é uma colectânea de textos de seu blog. Escritores mais velhos, porém, costumam manifestar certo descaso com a internet e os blogs. Como o senhor lida com a internet? O senhor lê outros blogs? Enxerga a internet como uma possibilidade de literatura ou apenas como fonte de informação?

SARAMAGO: Escrever num blog não difere em nada de escrever numa folha de papel. Salvo a extensão do texto em que, no caso do blog, se aconselha uma certa brevidade, os escritores não estão condicionados por normas ou regras que, supostamente, caracterizariam o blog. Não sou frequentador assíduo da internet. Consulto o Google com frequência, nada mais. Quanto a ler outros blogs, faço-a às vezes, mas não mantenho diálogo com eles. Para mim, a internet é uma fonte de informação rápida e em geral eficaz, porém não confundamos: a literatura ou é ou não é, não há meios termos. Muitas transformações teriam de dar-se (e eu não vejo como nem quais) para que a internet tomasse lugar no fazer literário.

O senhor acha que a experiência em escrever para um blog, onde teoricamente os textos são mais curtos e diretos, teve alguma influência na sua escrita?

SARAMAGO: Nenhuma. Continuo a utilizar frases longas, das que dão espaço e tempo para observações e análises quer considero necessárias. A tão louvada clareza das sínteses é, não raro, enganosa.

E como surgem os temas para o blog? A variedade é a regra? Qualquer pensamento que o senhor tenha pode motivar um post?

SARAMAGO: Não qualquer, evidentemente. Os temas surgem com naturalidade, embora uma vez ou outra haja que esforçar-se um pouco. A minha maior preocupação é não cair na monotonia nem na previsibilidade.

O senhor acompanha o fenómeno do Twitter? Acredita que a concisão de se expressar em 140 caracteres tem algum valor? Já pensou em abrir uma conta no site?

SARAMAGO: Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.

No livro, no texto do dia 25 de Novembro de 2008, o senhor revelou que jornalistas brasileiros, numa colectiva de imprensa, ficaram interessados em fazer perguntas sobre seu blog. Nele, o senhor escreve, sobre a internet: «Será que aqui, a bem dizer, nos assemelhamos todos? É isto o mais parecido com o poder dos cidadãos?». O senhor diz, ainda: «Não tenho respostas, apenas constato perguntas». Um ano depois, a resposta apareceu? O senhor considera a internet um espaço democrático e verdadeiramente livre?

SARAMAGO: Nada há que seja verdadeiramente livre nem suficientemente democrático. Não tenhamos ilusões, a internet não veio para salvar o mundo.

Já em 22 de Outubro de 2008, o senhor escreveu sobre o romance «Budapeste», de Chico Buarque: «Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro». Por que a literatura de Chico seria tão renovadora? O que o senhor pensa sobre o resto de sua obra. E o senhor já leu o novo romance de Chico, «Leite derramado»?

SARAMAGO: Achei «Leite derramado» à altura do melhor que Chico Buarque tem escrito, embora, de todos os seus livros, continue a preferir «Budapeste». A meu ver, a grande renovação operada por Chico Buarque deu-se ao nível da linguagem: o vernáculo toma o seu lugar ao lado do coloquial.

Em vários textos do livro, o senhor é crítico a figuras políticas: George Bush em 18 de setembro de 2008; Berlusconi em 19 de Setembro de 2008 e em 13 de Março de 2009; José Maria Aznar em 22 de Setembro de 2008; o papa Bento XVI em 9 de Outubro de 2008; Sarkozy em 6 de Janeiro de 2009; e a própria «esquerda» é alvo de críticas em 1 de Outubro de 2008. Mas há também textos esperançosos, sobretudo em relação à eleição de Barack Obama. Só que eu não me recordo de ter lido nada específico sobre o governo do Brasil. O que o senhor acha do presidente Lula?

SARAMAGO: Acho que o presidente Lula tem feito um excelente trabalho neste segundo mandato se aceitarmos como inevitáveis certas «infidelidades» ao seu programa inicial.

No dia 16 de Novembro de 2008, o senhor escreveu, ao completar 86 anos: «Dizem-me que as entrevistas valeram a pena. Eu, como de costume, duvido, talvez porque já esteja cansado de me ouvir. O que para outros ainda lhes poderá parecer novidade, tornou-se para mim, com o decorrer do tempo, em caldo requentado». O senhor acha impossível ser surpreendido por alguma entrevista hoje? O jornalismo contemporâneo teria se tornado esse mar de obviedades? Existiria alguma pergunta que o senhor espere (e gostaria que) fosse feita, mas que nunca foi feita?

SARAMAGO: Creio que me fizeram todas as perguntas possíveis. Eu próprio, se fosse jornalista, não saberia o que perguntar-me. O mal está nas inúmeras entrevistas que tenho dado. Em todo o caso, tenho o cuidado de responder seriamente ao que se me pergunta, o que me dá o direito de protestar contra a frivolidade de certos jornalistas a quem só interessa o escândalo ou a polêmica gratuita.

Mesmo após a publicação do livro, o senhor segue atualizando seu blog. O senhor tomou gosto pela coisa? Pretende seguir ocupando esse espaço indefinidamente? Podemos esperar um «O caderno II» para breve?

SARAMAGO: Haverá um «O caderno II» ainda este ano, mas não me vejo a escrever blogs indefinidamente. Tem sido uma boa experiência, chego a mais leitores com mais rapidez, mas tudo acaba por cansar.

Ainda nos textos recentes do blog, no dia 13 de julho o senhor escreveu um post muito afectuoso sobre sua alegria em ser escolhido académico correspondente da Academia Brasileira de Letras. Por que o Brasil é tão importante para o senhor? Qual sua memória mais antiga do país?

SARAMAGO: O Brasil é importante para qualquer português. Gostaria de nos ver mais unidos a trabalhar em assuntos de interesse comum, mas as políticas nacionais nem sempre se inspiram nas melhores razões. É uma pena que assim seja. As minhas memórias mais antigas são as da literatura, os nomes e as obras de Machado de Assis, Manuel Bandeira, Jorge Amado, João Cabral de Mello Neto, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos — tantos e tão grandes escritores, estes e outros, que fizeram da literatura brasileira um tesouro inesgotável.

Um documentário sobre sua relação com sua mulher, Pilar del Río, está sendo realizado, não? Em que fase está a produção? O senhor sempre me pareceu uma pessoa reservada em relação a sua intimidade, então por que aceitar que filmassem parte de sua rotina conjugal? Como foi abrir sua intimidade para uma equipe de filmagem? A proximidade com a câmara incomodou, provocou constrangimentos?

SARAMAGO: O documentário está na última fase da produção, é mesmo possível que o filme possa ser visto ainda este ano. Quanto ao resto, continuo a ser uma pessoa reservada. É certo que a abordagem escolhida aflora o delicado território dos sentimentos, mas sempre com discrição, a mesma que carateriza a nossa forma de viver. Quanto a isso da “rotina conjugal”, confesso que não sei exactamente de que se trata...

in Diário Digital

domingo, 7 de junho de 2009

Lendo - Crónica de Saramago no "El País"

TRIBUNA: JOSÉ SARAMAGO

La cosa Berlusconi


No veo qué otro nombre le podría dar. Una cosa peligrosamente parecida a un ser humano, una cosa que da fiestas, organiza orgías y manda en un país llamado Italia. Esta cosa, esta enfermedad, este virus amenaza con ser la causa de la muerte moral del país de Verdi si un vómito profundo no consigue arrancarlo de la conciencia de los italianos antes de que el veneno acabe corroyéndole las venas y destrozando el corazón de una de las más ricas culturas europeas. Los valores básicos de la convivencia humana son pisoteados todos los días por las patas viscosas de la cosa Berlusconi que, entre sus múltiples talentos, tiene una habilidad funambulesca para abusar de las palabras, pervirtiéndoles la intención y el sentido, como en el caso del Pueblo de la Libertad, que así se llama el partido con que asaltó el poder. Le llamé delincuente a esta cosa y no me arrepiento. Por razones de naturaleza semántica y social que otros podrán explicar mejor que yo, el término delincuente tiene en Italia una carga negativa mucho más fuerte que en cualquier otro idioma hablado en Europa. Para traducir de forma clara y contundente lo que pienso de la cosa Berlusconi utilizo el término en la acepción que la lengua de Dante le viene dando habitualmente, aunque sea más que dudoso que Dante lo haya usado alguna vez. Delincuencia, en mi portugués, significa, de acuerdo con los diccionarios y la práctica corriente de la comunicación, "acto de cometer delitos, desobedecer leyes o patrones morales". La definición asienta en la cosa Berlusconi sin una arruga, sin una tirantez, hasta el punto de parecerse más a una segunda piel que la ropa que se pone encima. Desde hace años la cosa Berlusconi viene cometiendo delitos de variable aunque siempre demostrada gravedad. Para colmo, no es que desobedezca leyes, sino, peor todavía, las manda fabricar para salvaguarda de sus intereses públicos y privados, de político, empresario y acompañante de menores, y en cuanto a los patrones morales, ni merece la pena hablar, no hay quien no sepa en Italia y en el mundo que la cosa Berlusconi hace mucho tiempo que cayó en la más completa abyección. Éste es el primer ministro italiano, ésta es la cosa que el pueblo italiano dos veces ha elegido para que le sirva de modelo, éste es el camino de la ruina al que, por arrastramiento, están siendo llevados los valores de libertad y dignidad que impregnaron la música de Verdi y la acción política de Garibaldi, esos que hicieron de la Italia del siglo XIX, durante la lucha por la unificación, una guía espiritual de Europa y de los europeos. Es esto lo que la cosa Berlusconi quiere lanzar al cubo de la basura de la Historia. ¿Lo acabarán permitiendo los italianos?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Lendo - Novo Livro de Saramago

José Saramago anunciou que, em Maio, entregou ao seu editor um novo livro que verá a luz do dia em Portugal e Espanha em Outubro, escusando-se a revelar o nome da nova obra.

Em declarações na Corunha, Espanha, o escritor português explicou apenas que o «livro será como um círio a arder, que quando está próximo de se apagar lança uma chama mais alta».

O Nobel da Literatura participou hoje nos ‘Diálogos Literários de Mariñan’, organizados pela Fundação Carlos Casares, durante os quais se referiu a temas tanto literários como políticos.

Saramago retomou a ideia antiga de um Estado ibérico, que considerou «historicamente legítima» e que passaria «não pela dissolução de Portugal em Espanha mas por um acrescento», como a autonomia maior.

«Isso de certeza não agradaria à Catalunha mas a Galiza não se importaria», afirmou.

O escritor referiu-se ainda à recente censura do seu livro «O Caderno de Saramago» em Itália, que atribuiu à «estupidez de um senhor e à cobardia de outros».

Ainda assim relembrou que em Portugal também o censuraram por ofender os católicos.

Referindo-se à actual crise, o escritor considera que os últimos meses demonstram que os políticos «adormeceram» os cidadãos e que a esquerda «não está à altura» do momento.

«Não tem ideias e se ainda não as apresentou dificilmente o fará noutras circunstâncias», afirmou.

À saída Pilar del Rio, mulher do escritor, afirmou que Saramago mantém a sua actividade diária normal, ao que este respondeu, brincando: «Isso significa que amanhã quando chegar a casa terei que começar a escrever outro livro».

Lusa

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Lendo - Saramago

O escritor português José Saramago encontra-se internado desde segunda-feira numa unidade de saúde da ilha espanhola de Lanzarote, no arquipélago das Canárias, onde tem a sua residência.

O Prémio Nobel da Literatura foi hospitalizado por precaução, segundo a imprensa local que cita fontes próximos do escritor.

O estado de saúde de José Saramago não é preocupante, nem comparável à pneumonia que o levou ao internamento em Dezembro de 2007.

Segundo a imprensa local, o escritor deve ter alta em breve. Saramago tem marcado para segunda-feira um encontro com um refém libertado pelas FARC, após sete anos de sequestro.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Cinema - Blindness (Ensaio Sobre a Cegueira)

Em Setembro o nosso Saramago estreia no cinema pela mão sabedora de Fernando Meirelles. Aqui ficam as imagens do primeiro trailer disponibilizado pela Miramax.
De todos os livros que li do nosso Nobel sempre achei que este era o que mais poderia ser transposto para o grande écran.


E a reacção de Saramago depois de ver a "premiére" do filme... muita emoção!!!!

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Lendo (I)

O Palácio Nacional de Mafra assinala sábado com um colóquio os 25 anos do livro «Memorial do Convento», no dia em que passam 290 anos desde o lançamento da primeira pedra do monumento. – Diário Digital/Lusa, 07.11.15

Interessante a notícia. Duas realidades que muito me marcaram. Mafra, onde cumpri parte do meu serviço militar e “Memorial do Convento”, para mim, o melhor livro de Saramago.

Mafra trouxe-me memórias. Algumas quase que esquecidas. Jovenzito de 21 anos a franquear as portadas enormes do Convento, ou “Calhau” como lhe chamávamos, receoso, largado da família num mundo novo, cruel, brutal e estupidificante. Nunca hei-de esquecer o tratamento dado a um objector de consciência que se encontrava à minha frente. Ainda bem que hoje só vai quem quer para essa inutilidade chamada Forças Armadas.

Mas nem tudo foi mau. Perduram ainda amizades feitas na altura.

Saramago. Com Saramago tenho uma relação de amor/ódio. Amor pelo que escreve e ódio por muitas das posições políticas que assume.

“Memorial do Convento”. De início de muito difícil leitura é um prazer que se aprende a gostar. Saramago tem a enorme habilidade de nos transpor para a época. Tudo aquilo é visualmente credível e imaginável. Tão imaginável que por vezes nos embrenhamos na teia urdida pelo escritor de tal modo que a abstracção é total.

Baltazar e Blimunda. Personagens de carne e osso, palpáveis. Ele perdeu a mão esquerda na guerra e ela tem o misterioso poder de ver para além das pessoas, o que está por debaixo da pele. Baltazar é também conhecido por Sete Sóis e Blimunda, mais tarde na trama, passa a conhecida por Sete Luas. Está escrito que onde houver um sol tem que haver uma lua. E é por causa do amor entre os dois que é possível a terra ser habitada.

Bartolomeu de Gusmão e a Passarola Voadora. É o sonho, a imaginação sem limites ao serviço da ciência e do progresso. O Jesuíta construiu uma máquina que voa usando como combustível a vontade humana. E não é senão essa vontade que nos trouxe até aqui, com todos os problemas e vantagens que é a vida do ser humano em pleno século XXI.

E juntam-se assim três sonhadores em pleno séc. XVIII num país supersticioso iluminado pelas fogueiras da Inquisição e governado por um rei megalómano que não sabe o que fazer ao ouro do Brasil. E tanto havia o que fazer.

E por aqui me fico cheio de vontade de reler este “Memorial...”, sem dúvida um dos mais belos e empolgantes livros da literatura portuguesa.