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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A FELICIDADE

a minha crónica no DN/Madeira de hoje:

A Felicidade

Tenho para mim que o supremo objectivo da nossa passagem pela vida é a busca da felicidade. Toda e qualquer decisão que nos torne infelizes é, quase sempre, uma má decisão. Obviamente que aceito que se nunca formos infelizes nunca saberemos o que é a felicidade. Isto porque funcionamos com comparações: sei que isto é bom porque conheço o que é mau; isto é amargo porque aquilo é doce; etc.. E as coisas só assim funcionam. Como uma verdadeira “lei dos opostos” que continuamente se explicam.

Mas persistir em tomar decisões umas atrás das outras que nos empurrem para estados de inanição é coisa que me faz imensa impressão. Independentemente das nossas convicções religiosas temos que aceitar que a nossa passagem pela vida é única. Daí termos que aproveitar todos os momentos e sugá-los intensamente como se fossem irrepetíveis. Aproveitar o que é bom e despachar rapidamente o que nos desperdiça, corrói e destrói. E isso às vezes também nos faz sofrer mas tem que ser visto como um ritual de passagem para coisas melhores. Costumo dizer que não tenho depressões porque não tenho tempo para isso.

Li algures que Deus tem inveja de nós, dos mortais. Por isso mesmo, por sermos mortais. A imortalidade deve ser uma coisa aborrecida porque repetitiva. Sabermos que temos um fim quase que nos obriga a não nos desperdiçarmos, a respirar intensamente e a tudo deitarmos mão.

A felicidade deve ser vista como uma conquista e não como um dado adquirido. Cada um faz a sua e não deve ficar à espera que ela lhe caia no colo. Felicidade é um direito universal que cada um conquista à sua maneira e acreditem que dá muito trabalho ser feliz.

E nunca, mas mesmo nunca se confunda esta com prazer, pois este é efémero e fugaz. A felicidade, a verdadeira felicidade é tranquila, calma e perdura por muito tempo.
 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

IN DIÁRIO NOTICIAS/MADEIRA - 11 OUTUBRO 2013

O Rei...

Havia um rei que tinha um prazer muito especial em se ouvir. Falava coisas muito faláveis que enchiam os ouvidos de uns quantos que com aquilo se deliciavam. 
Os seus discursos eram de boca cheia e na sua secretária moravam canetas de muitas cores e folhas de papel pardo onde escrevia desalmadamente tudo o que lhe vinha à cabeça. Secretários expeditos liam-lhe em voz alta os escritos e o Rei abanava a cabeça de contente com a qualidade da verborreia.
Mas eram tantos os seus escritos que ao Rei já não lhe ocorria nada de novo. Precisava de novos discursos, de novas ideias pequenas que pudesse desenvolver à exaustão. 
Daqueles que há sua volta andavam em bicos de pés destacava-se um que também gostava muito de se ouvir. Não tinha muito jeito para a coisa do falar e do escrever. Mas como falava grosso e alto tinha-se em muito boa conta.
Não tardou muito que esta personagem a todos se apresentasse como um verdadeiro especialista em “falas mágicas”! 
O Rei, que era pessoa viajada, já tinha ouvido falar de muita coisa, mas de “falas mágicas” nunca. Ficou curioso e mandou chamar “o da voz grossa”.
- Fale-me então dessas “falas mágicas”…
- Ah, meu Rei… - disse “o da voz grossa” – estas falas são muito especiais… só as pessoas inteligentes conseguem ouvi-las e lê-las!
O Rei ficou encantado e contratou-o imediatamente. Alojou-o num amplo aposento onde poderia escrever as “falas mágicas” que só os inteligentes poderiam ouvir e ler.
Passaram-se uns dias e o Rei mandou chamar o seu secretário. Mandou-o ir ao amplo aposento saber das escritas inteligentes do “da voz grossa”. E assim fez a figurinha.
Ao encontrar-se com o “da voz grossa” logo lhe exigiu ver o escrito. Foi lhe então apresentada uma folha de papel em branco.
- Veja a beleza deste escrito… As figuras de estilo, a elegância do fraseado… uma verborreia do mais alto gabarito digna somente dos mais inteligentes!
O secretário não conseguia ver uma única letra na folha em branco. “Se não vejo o escrito é porque sou estúpido” – pensou. Resolveu então fazer-se de inteligente.
- Mas que belo discurso. Do melhor em que pus a vista em cima… - disse. 
E voltou a trote para junto do Rei para lhe dar conta do concluído.
Até que chegou o dia em que o Rei mandou chamar o “da voz grossa” para que este lhe desse o discurso pois precisava de falar numa inauguração da décima parte da obra de uma circunvalação. 
Ao entregar o discurso o “da voz grossa” disse:
- Veja V. Majestade a beleza deste escrito… As figuras de estilo, a elegância do fraseado… uma verborreia do mais alto gabarito digna somente dos mais inteligentes!
O Rei, porque também ele não quis passar por estúpido, dirigiu-se apressadamente para a inauguração e começou a discursar. Só que desta vez movia a boca e não se ouvia uma palavra… não se ouvia um único som!
No alto de uma árvore estava uma criança que a tudo assistia. E na sua inocência, e no meio do sepulcral silêncio, logo diz:
- O Rei mexe a boca mas não diz nada!
O Rei pára os modilhos que fazia e o silêncio torna-se ainda maior!
De repente começam todos a rir e a gritar:
- O Rei não diz nada que se entenda… o Rei não diz nada que se entenda…
E o Rei saiu pela porta pequena do Palácio. 
E os ratos pela porta grande…

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Cronicando - Sporting x Porto

Na passada quarta-feira claquei. Normalmente, de quinze em quinze dias tenho os meus momentos de irracionalidade. Vou ao futebol.
A minha alma futebolística oscila entre o preto-e-branco regional e o verde-e-branco nacional. Tirando a experiência psico-auditiva que é ficar na frente da claque feminina nacionalista, nunca por nunca tinha estado em Alvalade a assistir a um jogo no meio da neurótica claque da Juve Leo.
E foi o que, por um mero acaso e por puro comodismo, me aconteceu há dois dias atrás.
Chegado ao estádio confronto-me com uma fila descomunal para comprar bilhetes e sou logo assaltado por candongueiros. Que “os bilhetes eram bons”, “que era o melhor lugar para ver o jogo”, “ óh meu amigo isto é mesmo na lateral”.
Pois... acabei a ver o jogo no meio de uma claque e em pé apesar dos confortáveis bancos que o estádio proporciona.
E claquei.
Os bilhetes comprados davam lugar aos três únicos lugares onde chovia copiosamente, até que percebi que um bom claquista se está a marimbar para lugares marcados. Como bom machus futebolis que é senta-se onde quiser.
Começou tudo por um minuto de silêncio que as avantesmas da claque acharam por bem não cumprir. Acho que era por causa de um antigo árbitro que faleceu. Eu cumpri esse momento escrupulosamente no meio de um apupo ensurdecedor intercalado por manguitos e por expressões indizíveis.
Começado o jogo perdi os primeiros cinco minutos pois as enormes bandeiras que dançavam à minha frente tapavam-me a visão. Assalta-me então um cheiro a cannabis que no final do jogo já me entorpecia o raciocínio e as palavras.
Uma falha da defesa e o Porto marca. “Em cada tripeiro... há um paneleiro”, cantou logo a claque em tom de desafio respondido de imediato por um enorme bruá do qual não se percebia uma palavra vindo dos lados onde estavam uns tais Super Dragões.
Às páginas tantas um tal de Postiga, ex-jogador do FCP, marca um golo com a mão. Se ofensa matasse penso que o árbitro caía redondinho no chão vitimado por súbita síncope.
E a partir daí o Sporting vai marcando golos uns atrás dos outros para meu gáudio e das bestas que me rodeiam.
Muitos deles divertiam-se imenso a saltar alarvemente em cima das cadeiras sobre as quais caíam desamparados e como machos que eram logo se levantavam a rir como se a dor não os afectasse. Lindo de ver!
E as ganzas lá iam andando de mão em mão alegremente.
Ao meu lado um gajo com três dentes na boca e muito pouco juízo cuspia-me ao ouvido palavras incompreensíveis. Fiquei na dúvida se não seria estrangeiro.
Atrás de mim um preto retinto insultava com expressões para lá de racistas um jogador mulato do Porto.
E tudo isto era pontuado com uns cânticos do mais idiota que se pode ouvir.
Aos noventa e três minutos o árbitro dá por terminado o encontro. Sou logo abraçado pelo meu “amigo” estrangeiro e pelo “amigo” preto que gritam a plenos pulmões “até os comemos”.
A mim, como não me apetecia “comer” ninguém todo suado, restou-me sair do estádio jurando que nunca mais quero clacar!

PS: ainda me dói uma perna de andar a saltar “estupidamente” enquanto gritava: “e quem não salta... é lampião”. Coisa que não percebi pois o jogo era contra o Porto!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Lendo - Ricardo Araújo Pereira

Esta crónica de RAP é simplesmente genial e põe-nos de facto a pensar no ponto a que chegámos:

A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada
Quando, no passado domingo, o Ministério das Finanças anunciou que o Governo vai prestar uma garantia de 20 mil milhões de euros aos bancos até ao fim do ano, respirei de alívio. Em tempos de gravíssima crise mundial, devemos ajudar quem mais precisa. E se há alguém que precisa de ajuda são os banqueiros. De acordo com notícias de Agosto deste ano, Portugal foi o país da Zona Euro em que as margens de lucro dos bancos mais aumentaram desde o início da crise. Segundo notícias de Agosto de 2007, os lucros dos quatro maiores bancos privados atingiram 1,137 mil milhões de euros, só no primeiro semestre desse ano, o que representava um aumento de 23% relativamente aos lucros dos mesmos bancos em igual período do ano anterior. Como é que esta gente estava a conseguir fazer face à crise sem a ajuda do Estado é, para mim, um mistério.
A partir de agora, porém, o Governo disponibiliza aos bancos dinheiro dos nossos impostos. Significa isto que eu, como contribuinte, sou fiador do banco que é meu credor. Financio o banco que me financia a mim. Não sei se o leitor está a conseguir captar toda a profundidade deste raciocínio. Eu consegui, mas tive de pensar muito e fiquei com dor de cabeça. Ou muito me engano ou o que se passa é o seguinte: os contribuintes emprestam o seu dinheiro aos bancos sem cobrar nada, e depois os bancos emprestam o mesmo dinheiro aos contribuintes, mas cobrando simpáticas taxas de juro. A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada.
Tendo em conta que, depois de anos de lucros colossais, a banca precisa de ajuda, há quem receie que os bancos voltem a não saber gerir este dinheiro garantido pelo Estado. Mas eu sei que as instituições bancárias aprenderam a sua lição e vão aplicar ajuizadamente a ajuda do Governo. Tenho a certeza de que os bancos vão usar pelo menos parte desse dinheiro para devolver aos clientes aqueles arredondamentos que foram fazendo indevidamente no crédito à habitação, por exemplo, e que ascendem a vários milhares de euros no final de cada empréstimo. Essa será, sem dúvida nenhuma, uma prioridade. Vivemos tempos difíceis, e julgo que todos, sem excepção, temos de dar as mãos. Por mim, dou as mãos aos bancos. Assim que eles tirarem as mãos do meu bolso, dou mesmo.

Ricardo Araújo Pereira
(in Visão)