sexta-feira, 3 de abril de 2009

Filosofando - Agostinho da Silva

No dia em que se assinala o 15º aniversário do seu desaparecimento, o filósofo Agostinho da Silva é invocado pelo neto João Rodrigo Mattos, nascido no Brasil, que o visitou em Lisboa, em 1993, e que guarda dessa visita uma recordação viva. "Ele impressionou-me muito. Tenho a recordação de estar na frente de um jovem de 87 anos", relata o descendente.

"Ele parecia até mais novo do que eu, que tinha então 19 anos", disse ainda ao CM o cineasta luso-brasileiro, que em 2000 voltou a Lisboa para realizar um documentário sobre o avô. "O meu avô era um renascentista, um homem múltiplo, que não se impunha as limitações que muitas vezes colocamos a nós próprios", acrescentou.

Exibido em 2006 pela RTP, o documentário ‘Agostinho da Silva, Um Pensamento Livre’ foi ainda visto em Espanha, França e Bélgica. Novas exibições têm-se sucedido este ano na América Latina. "O filme passou a semana passada na Argentina e no Festival Internacional de Cinema em Salvador, na Bahia", disse. Dentro de duas semanas será a vez de Fortaleza, no Ceará.

Entretanto, hoje (10h00-19h00), na Faculdade de Letras de Lisboa, Adriano Moreira participa, entre outros, no colóquio ‘O Legado de Agostinho da Silva: Quinze Anos Após a Sua Morte’. Em declaração ao CM, o conferencista Renato Epifânio sublinhou que "qualquer povo só terá real futuro na medida em que desenvolva uma autoconsciência colectiva." E foi "precisamente essa consciência – não apenas portuguesa, mas também, sobretudo, lusófona – o legado maior de Agostinho da Silva".

in Correio da Manhã

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Musicando - Amália Hoje

O álbum «Amália Hoje», que transforma em canções pop alguns fados conhecidos de Amália Rodrigues, pretende mostrar o «passado tremendo» de «uma artista pop em todo o seu esplendor», disse o autor do projecto, Nuno Gonçalves.

O disco só sairá no final de Abril, mas foi apresentado quarta-feira na íntegra, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, numa sessão que contou com a participação dos músicos que integram o grupo Hoje, criado propositadamente para este projecto: Nuno Gonçalves e Sónia Tavares, dos The Gift, Fernando Ribeiro, dos Moonspell, e Paulo Praça, dos Plaza.

Na audição integral do álbum, ficou a saber-se que «Amália Hoje» apresenta nove fados, a maioria com música que Alain Oulman compôs para Amália, com letras de poetas portugueses, como «Abandono» (David-Mourão-Ferreira), «Fado Português» (José Régio), «Gaivota» e «Formiga Bossa Nova», ambos de Alexandre O´Neill. Há ainda «Nome de Rua», de Alain Oulman, com poema de David Mourão-Ferreira, o tema francês «L´Important C´est La Rose», de Gilbert Becaud e que Amália cantou em francês, «Grito», que a fadista escreveu com música de Carlos Gonçalves e, a fechar, «Foi Deus», de Alberto Janes.

Musicalmente, não há praticamente nada que ligue estes temas aos fados que ficaram conhecidos na voz de Amália Rodrigues. Não há guitarras portuguesas, os arranjos assemelham-se à sonoridade dos The Gift, com a presença de orquestrações densas, de intensidade em crescendo e de apontamentos electrónicos a marcarem a cadência rítmica.

Destaque para «Formiga Bossa Nova», que Fernando Ribeiro interpretou num registo melódico que o afasta completamente da imagem de vocalista da banda heavy metal Moonspell. Já «Fado Português» e «Foi Deus», interpretados sobretudo por Sónia Tavares, vivem da forte presença de instrumentos de cordas, com a participação da London Session Orchestra.

Nuno Gonçalves, autor dos arranjos e da direcção musical, explicou que a intenção do projecto era mostrar algo «de novo e de diferente», mostrar Amália «com mais cor do que nunca» e que, como artista internacional, existiu para além do fado. «A nossa missão era sermos fiéis àquilo que achamos serem as nossas influências modernas da estrutura pop/rock, cantar em português e, de alguma forma, não ter medo de desrespeitar a obra e esse é o segredo, ter um pé na tradição e não ter problemas de mudar a cor», explicou. «Acho que Portugal nunca entendeu bem o que ela foi e se este disco, com a modernidade que transmite, puder fazer isso em 2009 e dez anos depois de ter morrido, acho que já é uma missão cumprida», rematou o músico.

Os três vocalistas dos Hoje referiram que aceitaram participar no projecto com a relutância inicial de quem não sabia interpretar os fados e muito menos entrar no universo de Amália Rodrigues, mas o resultado final demonstrou ser «tradicionalmente moderno», disse Paulo Praça. «Achei sempre que não conseguia, porque o registo da voz da Amália é muito diferente do meu», disse Sónia Tavares, mas, à medida que a cantora entrou no ambiente musical do projecto, encontrou o tom pop que Nuno Gonçalves pretendia e perdeu «o medo de dar voz à senhora dona Amália».

«Amália Hoje» será editado a 27 de Abril pela La Folie, editora criada pelos The Gift, e pela Valentim de Carvalho Multimédia, e poderá ser transposta para o palco, embora não haja qualquer data marcada. «Vai ser inevitável, mais cedo ou mais tarde, levarmos os Hoje para o palco e para a estrada. Não sabemos se isso vai acontecer ou não, mas quando as coisas saem bem necessitam de continuar e a continuação deste projecto, sem dúvida, serão os concertos ao vivo«, disse Fernando Ribeiro.

Lusa

Expondo - O Padre António Vieira nos Açores

Exposição colectiva de Pintura

O Padre António Vieira nos Açores – Ano Vieirino

Salão Nobre

do Teatro Municipal Baltazar Dias

De 1 a 11 de Abril 2009

inauguração quarta-feira dia 1 de Abril 2009, pelas 18.00h.

Uma organização das Câmaras Municipais do Funchal - Madeira e de Ponta Delgada – Açores

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Navegando - Google Labs

O Google disponibiliza a partir de hoje o Gmail Labs, em língua portuguesa, que permite aos utilizadores do serviço electrónico Gmail a personalização das suas caixas de correio, através de cerca de 50 novas funcionalidades.

Além do português, o Gmail Labs, desde 2008 em inglês, está agora disponível em mais 48 idiomas, que abrangem os cinco continentes.

O Gmail Labs à escala global é disponibilizado no dia em que o Gmail comemora o quinto aniversário do seu lançamento, que ocorreu a 01 de Abril de 2004.

«O que nós estamos a fazer é pôr à disposição dos utilizadores uma série de funcionalidades novas que eles podem adicionar à sua conta Gmail. Essas funcionalidades optativas que abrangem uma série de questões práticas tornam, no fundo, a navegação e a utilização do Gmail mais fácil de utilizar», salientou Paulo Barreto, director-geral do Google em Portugal, em declarações à Lusa.

Das novas funcionalidades, Paulo Barreto destacou a possibilidade de utilização do Gmail off-line. O utilizador pode aceder ao seu e-mail e escrever mensagens, mesmo quando não tem ligação à Internet, sendo que as alterações serão sincronizadas automaticamente assim que voltar a ter ligação.

Uma segunda funcionalidade do Gmail Labs, destacada pelo director do Google Portugal, é a denominada «Tarefas», através da qual o utilizador pode adicionar à sua caixa de entrada uma lista de tarefas a realizar, a partir de um e-mail e fazer alterações a partir do telemóvel.

O Gmail Labs disponibiliza também uma função que permite anular o envio de uma mensagem até cinco segundos após o envio.

Outra função experimental é o detector de anexo esquecido, que previne o envio de mensagens sem anexos, recebendo o utilizador um alerta caso tenha mencionado o anexo sem o ter adicionado.

Paulo Barreto salientou ainda outras «pequenas» alterações que irão permitir «ter mais do que uma 'inbox' a ser visualizada e passar o chat para o lado direito em vez de estar do lado esquerdo do écran», entre outras.

«O filtro do correio vai lhe pedir para fazer uma conta e só se acertar essa conta é que o e-mail vai seguir. É uma funcionalidade para as pessoas não mandarem e-mail fora de horas e, no fundo é só para verificar se as pessoas têm consciência das horas», disse.

De entre a meia centena de funcionalidades, Paulo Barreto, destacou também a que «permite visualizar vídeos do YouTube sem sair do Gmail, sem ter de ir ao site, o poder fazer 'play' no próprio e-mail e a possibilidade das mensagens serem traduzidas, caso sejam recebidas noutra língua», referiu.

Outras duas ferramentas que considera úteis são os «e-mails de resposta pré-definidos que sejam iguais para várias pessoas e as várias caixas de entrada com diversos filtros, que permite separar e-mails de trabalho de e-mails pessoais».

terça-feira, 31 de março de 2009

Lendo - O Triunfo dos Porcos

O poeta TS Eliot, enquanto director da editora Faber and Faber, nos anos 40 do século passado, recusou o manuscrito de O Triunfo dos Porcos, de George Orwell, por considerar a obra «nada convincente» e «trotskista».

Numa carta de 1944 em que justifica a sua recusa em publicar a obra na editora, Eliot, afirma que não era o momento para publicar o romance anti-estalinista.

«Não estamos convencidos de que seja o ponto de vista correcto. É a obrigação de qualquer editora de interesses e motivos distintos dos meramente comerciais publicar livros que vão contra a corrente do momento» , escreve.

O poeta e editor observa ainda não estar seguro de que aquilo que Orwell conta no seu romance «seja o que há que dizer neste momento».

A carta, integrada na colecção particular da viúva de Eliot, Valery, desde a morte do autor de Quatro Quartetos, será mostrada num documentário a exibir em breve na BBC.

Na sua carta, Eliot argumenta que o ponto de vista de Orwell, que o poeta considera «trotskista», «não é convincente».

A Eliot parece ter incomodado especialmente a caracterização que Orwell faz dos porcos na obra.

No romance, Napoleão, um suíno brutal que parece representar o ditador soviético Estaline, triunfa no final sobre Bola de Neve, um animal mais simpático, benfeitor de outros animais, que parece inspirado na figura de Trotsky.

De qualquer modo, Eliot registou também elogios para a obra de Orwell: «Estamos de acordo em que é uma destacada obra literária: a fábula está tratada com grande habilidade e a narrativa mantém sempre o interesse do leitor».

O editor termina a sua carta lamentando ter de rejeitar o manuscrito após elogiar o trabalho de Orwell, que qualifica de «boa literatura», caracterizada por uma «integridade fundamental».

O Triunfo dos Porcos , Animal Farm no original, foi publicado em Inglaterra pela primeira vez em Agosto de 1945 pela Secker and Warburg.

Lusa

Musicando - Dazkarieh

Aqui fica uma entrevista dada pela banda a Davide Pinheiro do sítio Disco Digital e umas fotografias do lançamento do disco "Hemisférios" tiradas por Filipe Morna Gomes.

Os Dazkarieh estão a comemorar dez anos de vida com a edição do duplo «Hemisférios». Vasco Casais passou em revista a primeira década da banda.

Que balanço fazem destes primeiros dez anos?
É um balanço super-positivo de um percurso sempre em crescendo. Gravámos quatro discos, demos 300 concertos e chegámos a muitas pessoas. Este é o álbum mais conseguido. Os dois primeiros foram experiências. O terceiro já soa a banda.

Esse crescimento é também um reflexo de um circuito de world music que se desenvolveu?
Acho que foram dez anos com ciclos. De facto, o circuito da world music cresceu. Quando editámos o primeiro álbum, a música étnica estava na moda. Com o passar do tempo, a world music ganhou outro estatuto, mais mainstream. Hoje, há bandas em festivais embora quase todas de fusão.

Os Dazkarieh enquadram-se em alguma facção?
Nós identificamo-lo como música portuguesa. É um rock alternativo folk experimental. Um dos hemisférios do novo disco serve exactamente para pegar na tradição oral portuguesa.

Como é que encontram um «centro» na vossa música?
Experimentamos sem qualquer problema. Cada um tem os seus gostos e depois o que houver em comum é o que nos une. Sabemos o que cada um gosta. Dessa equação, sai o que distingue a nossa personalidade.

Como é que surgiu a ideia de gravar um disco com duplo?
Não sei bem como surgiu. No disco anterior já tinhamos explorado a relação com a tradição. Lembro-me que na Cidade do México, ao pequeno-almoço, se falou na hipótese de fazermos um álbum duplo com originais e versões. Abraçámos esse projecto, que se tornou o objectivo máximo da banda.

Foi um disco difícil?
Não lhe chamaria difícil mas sim trabalhoso. Foi o disco em que a banda mais se empenhou. Houve muito trabalho a partir de Julho na sala de ensaios, sobretudo quando não tínhamos concertos.

Para quem não vos conhece, como é que obtêm aqueles sons que parecem guitarras eléctricas?
Todos os instrumentos que usamos são acústicos e mantemo-los mas criamos outras camadas. Processamos os sons através de amplificadores e pedais. Como não são instrumentos vulgares, o som e a captação são diferentes. O resultado é um som muito próprio.

Como é que são recebidos no estrangeiro?
Em geral, somos bem recebidos. No leste, diz-se que as pessoas são frias mas acaba tudo a dançar. Em geral, tem corrido bem: Estónia, México e Espanha são países que nos trazem boas recordações. Na Alemanha até já temos um clube de fãs .

Que sonhos é que ainda não concretizaram?
Estamos sempre a sonhar e este disco concretizou alguns deles. Conseguimos uma fusão mais una entre acústico e eléctrico. Agora, queremos chegar ao maior número de pessoas e tocar em festivais maiores. No fundo, o objectivo é consolidar a nossa carreira como músicos.

Musicando - Jerome Faria

Escreve João Filipe Pestana no DN/Madeira de hoje:

Acaba de ser editado o novo trabalho da autoria de Jerome Faria, programador e compositor na área da música electrónica experimental. O álbum chama-se '-0º' e é mais um registo musical da autoria deste produtor que tem procurado talhar caminhos entre o conceito vulgar de música e sonoplastia através do uso de técnicas de produção destrutivas e, por vezes, até dissonantes.

Jerome, que se manifestou satisfeito pelo resultado final, refere que o álbum foi gravado entre Novembro de 2008 e Fevereiro de 2009, em Portugal e Suíça. Adianta que o mesmo está disponível para audição e compra através do portal http://broqn.bandcamp.com.

Jerome Faria, também conhecido pelo projecto musical NNY, já editou vários álbuns, por exemplo, o trabalhoo 'NNY++', lançado pela editora madeirense Almasud Records.

Estreou-se pela primeira vez ao vivo no Festival Madeira Dig em 2004.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Entrevistando - Paulo Branco

Sofia Canelas de Castro entrevistou o produtor cinematográfico português Paulo Branco no Correio da Manhã:

Paulo Branco, produtor, analisa o estado do cinema português, critica o novo Fundo de Investimento para o sector e reclama pelo reforço do organismo oficial que gere apoios à indústria. E ainda aponta o dedo à tutela.


Como está o estado actual do cinema em Portugal?
A época de ouro do cinema português, anos 80 e 90, quando apareceram pessoas como o Pedro Costa, o Manoel de Oliveira, o João César Monteiro, a Teresa Villaverde, o João Botelho, e hoje, a comunidade política e a comunicação social têm tendência a esquecer-se desse período que levou o cinema português além-fronteiras. A qualidade do cinema em Portugal só foi possível graças a uma estrutura que, mal ou bem, resistiu às mudanças de governo, às mudanças de ministros. Essas estrutura é que tem de ser reforçada e não questionada. O Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), com as diversas denominações que teve ao longo dos tempos, foi o instrumento número um, que possibilitou ao cinema português ter aquela áurea enorme técnica.

Para si, o ICA foi então o grande impulsionador do cinema?
Exactamente. Fez aparecer poucos, mas alguns, produtores, muitos, e grandes realizadores e actores. Os grandes actores da televisão actual começaram no cinema. Rita Blanco, Bernardo Luís, Alexandra Lencastre, Margarida Vila-Nova... E o importante neste momento é não destruir esta base mas sim reforçá-la. E é preciso lembrar que nada disto foi feito com o orçamento geral do Estado, mas sim através da taxa de 4 por cento derivada da publicidade. Os contribuintes não tiveram participação e até deviam ter tido, como em tudo.

Então o que passa no cenário actual do cinema?
Há uma grande ignorância e novo-riquismo os decisores que estremeceram, nos últimos três anos, esta estrutura que é indispensável e devia ter mais fundos para além da taxa dos quatro porcento. Em vez de ter havido o reforço dos meios do ICA, houve um deslumbramento para caçar, a qualquer preço, espectadores. O grande cinema não pode ser feito com esse espírito. Mais do que isso, houve um desvio de uma lei que nos punha ao nível da Europa e que, de certa forma, obrigava qualquer operador audiovisual a investir em cinema e audiovisual. Isso foi transformado num projecto que só tem trazido a pior confusão e um grande oportunismo. É quase um caso de polícia.

Está a falar do Fundo de Investimento no Cinema e Audiovisual (FICA)?
Sim, é um discurso demagogo e aldrabão e uma caça ao dinheiro do Estado, através do Ministério de Economia. Este fundo é uma lei desviada dos contornos originais e que promete retornos impossíveis de obter. É um monstro, um aborto, que não tem nada a ver com critérios culturais. Mesmo que um filme faça 300 mil espectadores, o retorno ao produtor são 150 mil euros e os filmes são feitos com, pelo menos, um milhão e meio ou dois milhões de euros. Portanto não há retorno (como é regra para obtenção do fundo). A Lei que devia fomentar a cultura acabou por ser esquecida e desviada.

Nunca concorreu ao FICA?
Concorri e obtive uma pequena participação para o ‘Entre os Dedos’ (de Tiago Guedes e Frederico Serra’) mas as regras do FICA são de tal forma kafkianas...

Não voltou a tentar?
Mais uma ou duas vezes mas não cheguei sequer a discutir os projectos... Não me interessa.

Os filmes apoiados pelo FICA não conseguem então cumprir a regra do retorno relativa a este fundo?
É uma profusão de audiovisual de baixa qualidade mas não consegue espectadores para dar retorno nem sequer a nível cultural. Só dá uma imagem do país inacreditável e ‘inexportável’.

Então acha que se devia abolir o FICA?
O FICA nunca devia ter existido. A única estrutura que devia gerir o audiovisual em Portugal era o ICA e sem permitir baixar a qualidade. Não sei quem vai querer comprar, lá fora, o ‘Equador’ e é inacreditável que o primeiro produto audiovisual sobre Salazar tenha sido aquilo (‘A Vida Privada de Salazar’). Estamos muito abaixo de Berlusconi. E isto tem sido feito com o beneplácito do próprio ministro da Cultura que diz que isto não tem nada a ver com ele e adoptou a posição de avestruz.

E o ICA serve os propósitos do cinema português?
Tenho muitas críticas ao funcionamento da instituição mas não ponho em causa a estrutura. Quero é o reforço da estrutura com um reforço de verbas e responsabilização na promoção e desenvolvimento da produção audiovisual, além da cinematográfica, e com critérios de qualidade. Deviam ser criadas condições para que o ICA funcionasse melhor: deixasse esta burocratização excessiva e reforçasse as suas receitas – até podia ser com o reforço de 1% do volume de negócios das televisões privadas –, ter uma maior preocupação na distribuição e exibição e uma transparência no apoio a festivais. E rever o incentivo a primeiras obras, assim é difícil surgirem novos realizadores...

Há novos talentos no cinema?
Eu fiz nascer muitos novos e bons realizadores mas só com 10 filmes por ano é muito difícil fazer surgir novos talentos. Ou se criam condições para mais filmes ou não só não surgirão novos como será difícil confirmar os que existem.

“A PARTIR DO CARRILHO, TUDO DESCARRILOU”

Concorreu nas duas edições (e únicas até à data) do seu Estoril Film Festival?
Sim, mas segundo o ICA o festival teria de existir há mais de três anos.

Só terá, eventualmente, apoio na quarta edição?
Mesmo aí já me disseram que atribuíram a maior parte das verbas, nos contratos-programa de três ou quatro anos.

Como vê esse facto?
Quem dirigia o ICA, muitas vezes, seguia directrizes, nem sempre muito claras, do Ministério da Cultura. Enquanto o ministério tinha condições, corria tudo bem...

Está a falar de que época no ministério, da de Manuel Maria Carrilho?
Até aos tempos dele. Desde então nenhum ministro se leva a sério. Era importante o ministério da Cultura ter uma parte, do orçamento geral do Estado para a Cultura. A partir do Manuel Maria Carrilho, tudo descarrilou. Durante esse período, havia pessoas mais ou menos qualificadas no ICA e uma preocupação e atenção por parte do ministério.

E agora...
A seguir a Carrilho, o ICA passou a ser um depósito de funcionários públicos, pessoas que desembarcaram ali por amizades políticas e sem nenhuma experiência no cinema. E os ministros deixaram essas pessoas ir gerindo a situação. Ultimamente, numa tentativa de criar uma maior transparência, houve uma burocratização kafkiana e começaram-se a criar regulamentos. Criou-se uma teia de regulamentações e uma forma incompreensível de eleger os júris e distribuir os apoios anacrónica e completamente errada, com um lavar das mãos dos ministros. Chegou-se a um ponto absurdo em que os funcionários têm um poder absoluto e inventaram regulamentos impraticáveis e agora dizem que já não os podem mudar...e foram eles que os criaram. Por exemplo, as curtas-metragens têm de ter até 90 minutos e as longas-metragens a partir dessa duração. E um dia eu comentei: ‘Mas há grandes obras-primas só como 70 ou 80 minutos, como é que fazemos?’ ‘Só tem de ampliar o genérico mais uns minutos, foi a resposta que me deram’...

Quem?
O Dr. Nuno Fonseca, que já não está na direcção. O caso de ‘Singularidades de Uma Rapariga Loira’, última obra de Manoel de Oliveira, tem 64 minutos é um caso fora-da-lei. Este é só um exemplo para se perceber o anacronismo dos regulamentos que foram inventados...

Mas considerando ‘Os Mistérios de Lisboa’, que o Paulo Branco quer produzir e filme com o qual se candidatou ao ICA, em que discordou do regulamento (ao ponto de interpor uma providência cautelar, entretanto dada como improcedente, e consequente recurso)?
Eles tentam objectivar situações difíceis de serem objectivas. E o ICA tem júris que não têm relação nenhuma com o cinema ou a produção de filmes. É muito grave que sejam essas pessoas que vão analisar quem deve ou não deve filmar. Neste caso, o que se passa é que é tudo objectivado.

Especificamente com ‘Os Mistérios de Lisboa’, que ficou em terceiro lugar – excluído, portanto –, como está a situação?
Está num impasse. Como se encontra na Justiça preferia não falar agora. Meti nova providência cautelar e espero. Isto não pode servir como álibi para não serem tomadas decisões em relação aos concursos, para que tudo esteja parado como acontece neste momento. Isso é grave. Há uma série de outros concursos à espera de serem homologados pelo ministro da Cultura. E eu não quero de forma alguma parar a máquina.

Mas está convicto que o seu projecto merece apoio do ICA?
Segundo as regras, não estou só convicto, é inquestionável que tenho direito.

Se resultar em nova improcedência, o que fará?
Só espero é que não venha a atrasar mais concursos. O ministro não pode lavar as mãos.

Se ele homologar o concurso, que está para ser despachado, e confirmar os vencedores escolhidos pelo ICA – João Canijo e Edgar Pêra – o que fará com o seu projecto?
Defender-me-ei como acho que devo e acabou. E não se preocupe que vou fazer o filme.

Mas concorreu ao segundo concurso?
Sim, aguardo resultados.

Se ganhar ou ficar entre os contemplados, deixa cair o caso na Justiça?
Sim, não estou aqui para chatear ninguém.

PRÓXIMOS PROJECTOS DO PRODUTOR

Fale-me de ‘Os Mistérios de Lisboa’, de Raoul Ruiz.
É um dos projectos mais fascinantes que tenho em aos a partir de um texto brilhante do Camilo Castelo Branco. E é adaptação desse projecto a uma série, três episódios de hora e meia, e um filme. E será filmado pelo Ruiz, um dos maiores realizadores dos nossos tempos...

Porque não um realizador português, sendo uma obra de Camilo?
Curiosamente, nenhum português se interessou pelo projecto. E implica meios que com o Ruiz terei, além de ele ser o cineasta internacional que mais ligações tem a Portugal: filmou cá muitas vezes, conhece as equipas, os actores... Já fiz 25 filmes com ele, dos quais sete ou oito em Portugal.

Quem serão os protagonistas e qual o orçamento?
Ainda não estão escolhidos. O orçamento do filme e da série será cerca de quatro, cinco milhões de euros.

E depois segue-se a megaprodução de 10 millhões de euros, a sua maior de sempre, do ‘Cosmopolis’, a partir do livro de Don DeLillo...
Esse é para arrancar para o ano e será filmado pelo Olivier Assayas.

Musicando - Agenda

Concertos em Portugal, 30 de Março a 5 de Abril

Segunda-Feira, 30 de Março
Juliane Banse
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 19h00

Terça-Feira, 31 de Março
Ivan Lins & Jane Monheit
Cascais, Casino do Estoril, 20h30

Quarta-Feira, 1 de Abril
Mão Morta + Murdering Tripping Blues
Lisboa, Cinema São Jorge, 21h30

Quinta-feira, 2 de Abril
The Cinematic Orchestra
Lisboa, Aula Magna, 21h00

Sexta-Feira, 3 de Abril
Mike Doughty
Porto, Passos Manuel, 22h00

Sábado, 4 de Abril
Buraka Som Sistema + Cool Hipnoise + X-Wife + Klepht + Fingertips + doismileoito
Lisboa, Aula Magna, 21h00

Magic Numbers + Legendary Tiger Man
Porto, Casa da Música, 21h30

Domingo, 5 de Abril
The Skatalites + Raspect + Humblek
Lisboa, Santiago Alquimista, 22h00

sábado, 28 de março de 2009

Cinema - Aquele Querido Mês de Agosto

O filme «Aquele querido mês de Agosto» de Miguel Gomes arrecadou hoje, no Festival Internacional de Guadalajara (México), os prémios especiais do Júri e de Som.

O filme, a segunda longa-metragem do realizador português está a competir este fim-de-semana no Festival de Cinema Independente de Buenos Aires, onde será ainda exibida uma retrospectiva da obra completa do realizador português.

Protagonizado por Catarina Wallenstein, «Aquele querido mês de Agosto» foi já distinguido no Festival de Cinema de Las Palmas (Canárias), com os prémios Lady Harimaguada de Prata e o José Rivero atribuído ao Melhor Novo Realizador.

O filme português deverá estar presente nos festivais de cinema de Wisconsin que se realiza de 02 a 05 de Abril, de São Francisco (23 de Abril a 07 de Maio), de Los Angeles (18 a 28 de Junho), e ainda, na Nova Zelândia, em Auckland (10 a 27 de Julho) e de Wellington (18 de Julho a 03 de Agosto).



Dançando - Peer Gynt, etc.

Escreve o DN/Madeira de hoje:

A Sala Ursa Maior no Tecnopólo acolhe hoje à noite, a partir das 20h30, o espectáculo 'Peer Gynt, etc.', que será levado à cena pela ADAM - Associação de Dança e Arte da Madeira.

Este evento junta em palco, ao longo de mais de uma hora, alunos da referida associação, bem como um grupo de outros alunos do Curso Profissional de Intérprete de Dança Contemporânea, do Conservatório - Escola das Artes da Madeira e Kathleen Lourenço e Victor Neri, ex-bailarinos do Casino. Tatiana Somkina e Natasha Silva são outras das estrelas desta nova produção, que conta com a participação de mais de 40 bailarinos, dez deles avançados.

Os bilhetes podem ser adquiridos no local, a partir das 18h30. Custam dez euros para o público em geral e metade deste valor para estudantes e seniores.

As coreografias originais e as adaptações são de Sergey Abakumov.

Comendo - Chega de Saudade


Apareçam hoje a partir das 14h. Ainda há alguns lugares. As marcações fazem-se para o nº 291 24 22 89

sexta-feira, 27 de março de 2009

Teatrando - C. S. I. Funchal

O blog já está no "ar" em:

http://csifunchal.blogspot.com/

Teatrando - 27 de Março, Dia Mundial do Teatro

Mensagem Internacional do Teatro 2009
por Augusto Boal

Somos todos actores

Todas as sociedades humanas são espectaculares no seu quotidiano, e produzem espectáculos em momentos especiais. São espectaculares como forma de organização social, e produzem espectáculos como este que vocês vieram ver.

Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!

Não só casamentos e funerais são espectáculos, mas também os rituais quotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática – tudo é teatro.

Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espectáculos da vida diária onde os actores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida quotidiana.

Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.

Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espectáculo, eu dizia aos meus actores: “Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida”.

Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, géneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.

Assistam ao espectáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!

Actores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!

Augusto Boal

quarta-feira, 25 de março de 2009

Cozinhando - Na Cozinha Com... no "Chega de Saudade"

(clicar sobre a imagem para ver maior)

As coisas em que eu me meto....

Passeando

Na semana passada estive em Lisboa. Aqui ficam alguns momentos...


ORAL Tour!
No IPS (Instituto Politécnico de Setúbal) - dia 17 de Março
com Pedro Ribeiro, António Raminhos e Carlos Moura


Irmãos Catita com Phil Mendrix no Maxime


"Os Produtores" um musical a não perder no Tivoli, com Miguel Dias, Manuel Marques e Rita Pereira.




Lançamento de "Hemisférios" dos Dazkarieh no Cinema S. Jorge. Este tema é uma recriação do "Baile da Meia Volta" do Porto Santo. Neste CD é também possível ouvir uma versão da nossa "Cantiga de Embalar".

terça-feira, 24 de março de 2009

Musicando - Buraka Som Sistema

Musicando - Teiskon Mieslaulajat

Ainda no DN de hoje e pela mão de Catanho Fernandes pode ler-se:

O coro masculino Teiskon Mieslaulajat, da cidade de Tampere, na Finlândia, vai fazer duas apresentações no Funchal durante esta semana.

A primeira será hoje na Igreja do Colégio, com início pelas 20h30, com acesso livre. A segunda terá lugar no Museu de Electricidade/Casa da Luz, na quinta-feira, dia 26, com início pelas 20 horas.

Este coro finlandês foi fundado há cerca de 50 anos na terceira maior cidade da Finlândia, por iniciativa das congregações evangélicas luteranas, sendo hoje o segundo agrupamento do género mais importante de Tampere. Nos últimos dez anos passou por importantes desenvolvimentos, criando inclusive algumas outras valências artísticas, nomeadamente em peças teatrais e outros eventos musicais, em que participam também os familiares dos coralistas.

O Coro Teiskon Mieslaulajat apresentará esta noite na Igreja do Colégio um repertório constituído por músicas espirituais num concerto de cerca de 40 minutos. Este grupo tem tido ao longo da sua história uma presença frequente nos mais importantes eventos religiosos de Tampere, além de actuações em outras cidades finlandesas, e no estrangeiro, onde o grupo se desloca a expensas dos seus membros. Anteriormente actuaram na Suécia, Estónia e na Espanha. Desde o ano passado que tinham escolhido a Madeira, onde se deslocaram cerca de 140 pessoas. A maior parte dos artistas, todos eles amadores, fazem-se acompanhar por familiares.

O coro é dirigido pelo maestro Tuomas Laatu, conhecido intérprete de música espiritual. O seu talento como barítono é muito apreciado no Norte da Europa, onde tem sido protagonista de diversa óperas e solos em serviços religiosos. É cantor e organista residente da Catedral de Tampere.

O espectáculo da quinta-feira, dia 26, no Museu de Electricidade terá entradas pagas (7,5 euros por pessoa) e será diferente do da Igreja do Colégio. Será um 'show' musical, com algumas partes teatralizadas e com música ligeira, bem diferente do que será realizado hoje na Igreja do Colégio.

Musicando - Couple Coffee

Escreve Paula Henriques no DN/Madeira de hoje:

Couple Coffee viajam ao som da Bossa Nova Kool Klub recebe amanhã a banda que canta também composições de Zeca Afonso.

Chamam-se Couple Coffee e são a proposta para mais uma das 'Noites Kooltura', amanhã no Kool Klub Kafe. A dupla brasileira radicada em Portugal promete uma viagem musical íntima pelos principais compositores de terras de Vera Cruz e não só.

Luanda Cozetti na voz e Norton Daiello no baixo eléctrico formam a Couple Coffee, uma revelação no panorama da música nacional: "A voz carismática de Luanda aliada à genuinidade da sua interpretação fez dela um dos grandes destaques da nova música popular brasileira", apresentam.

A técnica, sensibilidade e criatividade da vocalista são destacados nas interpretações de covers que apresenta com "uma roupagem pouco vulgar, intimista mas simultaneamente alegre", acrescentam.

A dupla, que por vezes actua e grava com outros músicos, estreou-se com 'Puro', em 2005, um álbum que contou com a participação de J.P.Simões e Sérgio Costa do Quinteto Tati, Vitorino, Jorge Palma e Gabriel Gomes. Dois anos depois chegou ao mercado 'Co' as Tamanquinhas do Zeca', um álbum centrado na obra do cantautor português José Afonso. Seguia-se o projecto de originais, mas em 2008 decidiram adiar e homenagear os 50 anos de Bossa Nova com um álbum gravado ao vivo no Musicbox, o 'Young and Lovely'. Deverá ser sobretudo destes dois discos que sairá a maior parte dos temas para o concerto de amanhã, a partir das 23h45 no Kool.